Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Missa negra, filme cinzento

Filmes sobre o submundo do crime organizado são recorrentes na história do cinema, desde que se inventou o chamado “filme de gangsters”. A Máfia italiana tem primazia, com “O Padrinho” a tutelar todas as referências, mas a Sétima Arte já se debruçou sobre histórias das «máfias» russa, latina, inglesa e irlandesa, precisamente aquela onde se ancora este “Jogo Sujo”.
O anti-herói é James “Whitey” Bulger, o rei do crime de Boston nos anos 70 e 80, que teve a particularidade de ter sido um informador do FBI. O próprio nega o epíteto, preferindo chamar-lhe “negócio”, já que o que se passava é que ele fornecia informação sobre os gangues rivais, a troco de um olhar discreto do “Bureau” sobre as suas “actividades comerciais”.
Ou seja, em pleno século XX, assistimos a um “acordo com o Diabo”. Tivessem lido os clássicos, com “Fausto”, de Goethe, à cabeça, e saberiam que assinar um contrato com Mefistófeles é ter a certeza que tudo irá acabar mal… Porque James Bulger é a encarnação do Mal. Mata, rouba, agride com a naturalidade de quem escolheu o Lado Negro e domina as regras do jogo. Chega ao cúmulo de educar o filho dizendo-lhe que não há problema algum em agredir outras crianças, se isso acontecer sem que alguém veja. Ou seja, “vergonha não é roubar, é ser apanhado”… Espanta, por isso, ver o sacrossanto FBI a realizar um acordo de colaboração com um ser humano desta jaez, quando a inversão de valores é gritante. Aliás, o nome original do filme, “Black Mass/Missa Negra” aponta para aí, algo que o insípido título português “Jogo Sujo” destrói. É que uma “missa negra” é uma cerimónia de celebração de Satanás, num ambiente decorado a preto e vermelho, onde os símbolos cristãos, como a cruz, estão invertidos – brilhante, o poster do filme, que claramente se inspirou nesse imaginário simbólico. E o tal “contrato” significa isso mesmo, um acordo entre opostos e que só prenuncia tragédia e desastre.
A interpretação de Johhny Depp é o melhor que o filme tem para oferecer. Na pele dum “pirata” urbano, sem alma e sem escrúpulos, consegue fazer com que o seu olhar, brilhante, espelhe o fascínio que a sua alma tem pelo Mal. O resto são actores secundários, competentes é certo, mas que apenas servem o “seu mestre e senhor”, Johnny Depp. Quanto à realização, revela-se perfeitamente banal. É claro que nesta temática já por cá andaram Hawks, Coppolla, Leone, os Cohen e Scorcese, só para lembrar alguns génios da Sétima Arte. Daí não ser de admirar que Scott Cooper pareça nada mais ter feito do que contar o argumento que lhe caiu no regaço. Isso, ele faz com competência, como já o tinha feito em “Crazy Heart” e “Para Além das Cinzas”. E o problema é mesmo esse. É que estas histórias de mafiosos, onde o jogo entre a vida e a morte, entre a luz e a escuridão, entre a salvação e a danação eterna é levado ao extremo, são o cenário perfeito para obras com uma dimensão “bigger than life”. Mas Cooper, infelizmente, não teve fôlego para tanto.

Publicada a 22-10-2015 por Pedro Brás Marques