Cinecartaz

Helena Barbosa Amaro

A cantar, a cantar

Suspeita, gosto de quase todo o cinema francês que vejo. Ainda longe de alguns menos recentes ("Ma Petite Jerusalem", "De Battre Mon Coeur S'est Arretté", "L'amant de Lady Chatterley") e de outros muito mais velhos ainda, este "Família Bélier" é um filme de deixar as pessoas na sala sentadas quando o filme acaba, ainda no escuro, para ninguém veja as lágrimas que rolaram cara abaixo, em tanta gente. É um filme onde se canta sem ser um musical, onde se fala de dramas familiares de gente a crescer a quem competem tarefas de gente muito crescida, onde uma rapariga decide dar o salto quando se torna numa mulher por inteiro (e nunca se é uma mulher por inteiro sem se espetar primeiro um estalo a sério num puto bonito de língua comprida); onde se fala de política, de comunidade e da falta dela e do que se pede e não se pede a um candidato surdo-mudo; onde se fala, sem grandes rodriguinhos, de traduções diplomáticas, selvagens e censórias; onde as oportunidades acabam por estar sempre na Paris luminosa e que tem direito de as procurar quem fabrica queijos numa família de surdos-mudos que ouve música dentro do carro com um amplificador e não sabia que tinha uma cantora em casa (e a cantora também não sabia que se tinha assim dentro de si); onde uma mulher aprende a importância de ser teimosa, como o carneiro/bélier que leva no nome e se repete a si mesma, vezes sem conta, até se ouvir.
Este filme lembra algumas coisas de Wes Anderson e de "Les Femmes du 6 Eme Étage", mas também a vontade de uma mulher a sair do seu bairro confortável e entrar em conflito com a Mãe para ser o que quer ser, como no lindíssimo "Ma Petite Jerusalem", que toda a gente devia ver e rever até o cumprir. É um filme a ver e a dar a ver a quem vai ter filhos a porem-se na alheta em breve. E deixa um recado: é melhor cantar muito, bem ou mal, que a vida, como canta Sardou, leva-se melhor assim e morre-se menos se se despejar na música as fossas da existência, como diz a dada altura o professor falsamente discreto no enredo.
E por fazer laços entre pontas soltas que não seriam de juntar, este filme remete-me para o documentário de Tiago Pereira sobre "A música portuguesa a gostar dela própria", quando a dada altura uma das senhoras cantadeiras fala do que a levava a ela e à Mãe a cantar: espantar a fome, espantar dias piores. Da BSO:
https://www.youtube.com/watch?v=LV7iQh7MSP4 https://www.youtube.com/watch?v=0cW2HZbSh2U (na versão da rapariga que canta no filme). https://www.youtube.com/watch?v=-er9ZsnXYkk (promessa maravilhosa de quem acabou de entrar pelo universo das paixões adentro)

Publicada a 27-08-2015 por Helena Barbosa Amaro