Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Uma questão de etiqueta

“O Mordomo” é uma oportunidade perdida. Esta história oferecia material para um filme excepcional, tal qual a história do protagonista, um criado de casa ao longo de décadas. A particularidade, aqui, é que a “casa”, é a Casa Branca, a residência oficial do Presidente dos EUA, o «homem mais poderoso do Mundo».

Mais do que a história e os dramas pessoais da personagem principal – o assassinato do pai, o alcoolismo da mulher, os problemas com os filhos – assistimos ao desenrolar da história da América do ponto de vista da comunidade negra. De quase escrava em meados do século XX, acaba a celebrar a conquista da Presidência na primeira década do Sec. XXI. Efectivamente, foram dados passos enormes no caminho da Liberdade e da Igualdade de Direitos Civis e nunca será de mais relembrá-lo. O problema está no “como”…

Lee Daniels optou por ir apresentando estas conquistas por ordem cronológica, pondo o enfoque na dicotomia de atitudes entre o pai, o mordomo, e o filho mais velho (o mais novo morrera no Vietnam…). O primeiro é passivo, aceita a tradicional subjugação e acha que o segredo para vencer na vida é aquele que preside à sua profissão: ser “invisível”. Já o filho opta pela luta, mais ou menos pacífica, privando com Martin Luther King, mas recusando o militarismo de Malcolm X e dos Black Panthers. É dentro desta ambivalência que o filme se procura equilibrar mas não o conseguindo. Tudo parece demasiado previsível e escolástico e não estou a referir-me ao facto de “já conhecermos a história”. Aliás, a partir de metade, a visualização torna-se penosa, tal a falta de criatividade e de genuinidade demonstradas. É quando acorda o até ali adormecido intuito panfletário, não fosse este um produto claramente ligado ao Partido Democrático: o próprio Lee Daniels (quase tão obsessivo como o Spike Lee…) e também Jane Fonda, John Cusack, Robin Williams e, claro, a insuportável Oprah Winfrey. Vá lá, por uma vez, a apresentadora está bem, no papel da mulher do criado, uma alcoólica e adúltera, mas sem histerismos e guinchos! Aliás, as cenas mais íntimas, de vida em comum, com os desabafos e os medos que o casal confessa sentir pela sua vida e pela dos filhos, são o melhor do filme. Ah! E Forest Whitaker confirma que é o melhor actor negro, bem melhor do que o vaidoso Denzel Washington.

Ultimamente, têm surgido vários filmes cujo intuito é não deixar esquecer o que foi o holocausto da raça negra em terras americanas. Veja-se “As Serviçais”, “Django Unchained”, até o próprio “Lincoln”. Mas esses são filmes que honram o cinema. Este “O Criado” não passa de um telefilme feito com meios acima da média… E a música do Rodrigo Leão passa quase despercebida... Aliás, a coisa que mais me impressionou foi ficar a saber que, dentro da mesma categoria laboral, só na Presidência de Ronald Reagan os empregados negros da Casa Branca passaram a auferir o mesmo que os brancos!...

Publicada a 20-10-2013 por Pedro Brás Marques