Cinecartaz

MIGUEL COSTA

E não ganhei a viagem aos Açores ...

ILHA DO CORVO: 17,3 kms2 de dimensão; fartura de mar; pouco mais de 400 "selvagens" (rótulo aplicado pelos seus únicos vizinhos, da Ilha das Flores); e um enorme território humano (velhos apaixonados pelas baleias a quem roubavam a vida; pastores sem ovelhas; músicos/cantores de Karaoke “surdos”; políticos sem votos; bailarinos, que “vivem na lua”, e dançam com as plantas; um correspondente da tv pública em busca da reportagem perdida; um ornitólogo que vomita com a emoção de confraternizar com pássaros raros; um “tunning man” sem uma ponte Vasco da Gama para acelerar …)
Um pedaço de rocha, algures no Atlântico, sem memórias escritas (o "biógrafo" da terra, num dia mau, decidiu deitar fogo ao "diário da ilha"), mas com muito passado para/por contar. Já quanto a futuro ...

Gonçalo Tocha, um estranho (e os lugares pequenos não têm por hábito gostar de forasteiros), conseguiu ser "aceite como um deles", entrar no(s) seu(s) interior(es) – como uma espécie de Alice na Ilha das Maravilhas -, e, através das estórias soltas vividas/percepcionadas pelos "(sobre)viventes do isolamento", alinhavar (com a mesma paciência/saber da velhota que lhe tricotou um boné tradicional) uma autêntica "manta de retalhos", com a qual "caracteriza", de modo não (in)formativo (deixando espaço para o nosso livre arbítrio) toda a geografia de um povo maduro como os melões (perceberão esta expressão aqueles que tiverem visionado a película ). E isto sem nunca esconder que "apenas" está a filmar, sem qualquer pretensão de explicar, justificar, perceber, julgar o que quer que seja ... "só" mostrar, durante 3 horas (o trabalho de terreno de 4 anos), que passam num instantinho.

Publicada a 15-05-2012 por MIGUEL COSTA