"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" apresenta-nos um retrato da Rom�nia de Ceausescu em final de regime ditatorial. No entanto, e como em qualquer ditadura, os cidad�os s�o coagidos e limitados nas suas ac��es pelo aparelho de Estado. Tal verifica-se no filme (para al�m dos �bvios elementos de autoridade, como por exemplo a pol�cia) atrav�s da postura de uma simples recepcionista de hotel - no modo autorit�rio com que se dirige a um potencial cliente, pedindo-lhe sumariamente a identifica��o para efeitos de registo.
Mediante este opressor quadro social, torna-se evidente que uma quest�o como o aborto n�o seria algo f�cil com que se lidar - particularmente para as intervenientes (ainda hoje n�o o � na maioria das sociedades). Nos meandros destas situa��es, habitualmente cirandam especuladores que procuram tirar o melhor proveito pessoal poss�vel que as mesmas lhes possam proporcionar. � o que sucede �s duas estudantes universit�rias que recorrem ao servi�o de um duvidoso "Sr. Bebe", o qual, a um primeiro n�vel, se apresenta voluntarioso para as ajudar numa situa��o embara�osa para, a um segundo n�vel, reclamar o resto do pagamento por si considerado justo atrav�s do corpo das pr�prias jovens (inclusive, da gr�vida). Trata-se portanto de uma situa��o criada pelo clima de autoritarismo social, o qual condena abertamente a pr�tica do aborto, punindo severamente os seus praticantes. Isto acaba por dar azo ao surgimento de indiv�duos que se aproveitam daqueles que se encontram manietados pela pr�pria situa��o em si. Esta evid�ncia � muito bem retratada no filme - o facto de o "Sr. Bebe" deixar a sua identifica��o "esquecida" na recep��o do hotel denota uma inten��o previamente determinada.
O modo como os espa�os s�o apresentados, quer interiores quer exteriores, s�o-no de uma forma assustadoramente claustrof�bica que, por um lado, se constituem como ecos do clima de repress�o social caracter�stico a qualquer ditadura e, por outro lado, funcionam como manifesta��es psicol�gicas da situa��o que as duas protagonistas est�o a viver - particularmente de Ot�lia (Anamaria Marinca). A necessidade que esta tem, por exemplo, em abrir as torneiras na casa de banho, como modo de anula��o do sil�ncio - o simples som da �gua a correr. Ou fugir literalmente do namorado quando se encontra frente-a-frente com mesmo, n�o havendo nada entre ambos para al�m do sil�ncio suscitado pela ang�stia que paira na atmosfera.
O argumento (pegando numa tem�tica pouco consensual em termos de opini�o p�blica, como � a quest�o do aborto) constitui-se como um bom ponto de partida para a execu��o deste filme. A narrativa � apresentada do in�cio ao final de forma escorreita, sem qualquer tipo de falhas ou elipses de sequ�ncia desnecess�rias. Em s�mula, trata-se de um excelente exemplo de "narrativa f�lmica", sem necessidade de se recorrer a muitos floreados. A realidade, per se, � assim mesmo - rude, crua, feia, desagrad�vel. E isto � soberbamente retratado por Cristian Mungiu.
Mediante este opressor quadro social, torna-se evidente que uma quest�o como o aborto n�o seria algo f�cil com que se lidar - particularmente para as intervenientes (ainda hoje n�o o � na maioria das sociedades). Nos meandros destas situa��es, habitualmente cirandam especuladores que procuram tirar o melhor proveito pessoal poss�vel que as mesmas lhes possam proporcionar. � o que sucede �s duas estudantes universit�rias que recorrem ao servi�o de um duvidoso "Sr. Bebe", o qual, a um primeiro n�vel, se apresenta voluntarioso para as ajudar numa situa��o embara�osa para, a um segundo n�vel, reclamar o resto do pagamento por si considerado justo atrav�s do corpo das pr�prias jovens (inclusive, da gr�vida). Trata-se portanto de uma situa��o criada pelo clima de autoritarismo social, o qual condena abertamente a pr�tica do aborto, punindo severamente os seus praticantes. Isto acaba por dar azo ao surgimento de indiv�duos que se aproveitam daqueles que se encontram manietados pela pr�pria situa��o em si. Esta evid�ncia � muito bem retratada no filme - o facto de o "Sr. Bebe" deixar a sua identifica��o "esquecida" na recep��o do hotel denota uma inten��o previamente determinada.
O modo como os espa�os s�o apresentados, quer interiores quer exteriores, s�o-no de uma forma assustadoramente claustrof�bica que, por um lado, se constituem como ecos do clima de repress�o social caracter�stico a qualquer ditadura e, por outro lado, funcionam como manifesta��es psicol�gicas da situa��o que as duas protagonistas est�o a viver - particularmente de Ot�lia (Anamaria Marinca). A necessidade que esta tem, por exemplo, em abrir as torneiras na casa de banho, como modo de anula��o do sil�ncio - o simples som da �gua a correr. Ou fugir literalmente do namorado quando se encontra frente-a-frente com mesmo, n�o havendo nada entre ambos para al�m do sil�ncio suscitado pela ang�stia que paira na atmosfera.
O argumento (pegando numa tem�tica pouco consensual em termos de opini�o p�blica, como � a quest�o do aborto) constitui-se como um bom ponto de partida para a execu��o deste filme. A narrativa � apresentada do in�cio ao final de forma escorreita, sem qualquer tipo de falhas ou elipses de sequ�ncia desnecess�rias. Em s�mula, trata-se de um excelente exemplo de "narrativa f�lmica", sem necessidade de se recorrer a muitos floreados. A realidade, per se, � assim mesmo - rude, crua, feia, desagrad�vel. E isto � soberbamente retratado por Cristian Mungiu.