Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Fraternidade

O mais conhecido dos realizadores finlandeses está de regresso com este “O Outro lado da Esperança”, onde insiste na temática dos refugiados, cinco anos após o interessante “O Porto/Le Havre”.
Um jovem sírio consegue chegar ao porto de Helsínquia, onde pede asilo político. Tem de percorrer um pequeno calvário burocrático, depois da longa e atribulada viagem desde a Turquia. Em paralelo, um homem já de idade avançada, resolve mudar tudo na sua vida: abandona a mulher, liquida a sua empresa de vendas de roupa, aposta tudo no jogo e, com o dinheiro obtido disto tudo, compra um restaurante - onde se irá cruzar com o refugiado sírio.
Ari Kaurismaki é conhecido pela “secura” dos seus filmes: diálogos apenas os estritamente necessários, os cenários são básicos, por vezes toscos até, dignos duma peça de teatro e as personagens parecem saídas duma máquina do tempo. Tudo se passa na actualidade duma Finlândia que parou algures entre os anos 60 e 70 do século passado: personagens com roupas completamente ultrapassadas no corte e nos padrões, automóveis antigos, lojas de roupa desactualizadas, cafés com cadeiras gastas e toalhas puídas, decoração indescritivelmente kitsch… Para compensar esta intencional penúria, temos o virtuosismo de Kaurismaki, com planos pensados ao pormenor, onde as personagens parecem condicionadas na sua liberdade de movimentos, sob pena de estragarem a estética da composição. E depois há o humor, onde o “nonsense” impera, em claro contraponto com o dramatismo dos refugiados que lutam por um emprego ou anseiam pela chegada da família. Além desta “estética retro”, Kaurismaki insiste numa banda sonora onde os intérpretes são todos septuagenários, executando temas de country e blues cantados em finlandês, numa referência evidente a que a miscigenação cultural começou muito antes da pessoal.
“O Outro lado da esperança” aparece-nos, portanto, como um objecto estranho, dessincronizado no tempo, mas sublinhando algo de intemporal: a fraternidade nas relações humanas.

Publicada a 09-11-2017 por Pedro Brás Marques