Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

4 estrelas

"O Outro Lado da Esperança" inicia-se com duas histórias distintas que a partir de determinado momento irão cruzar-se (e entrelaçar-se de um modo delicioso): a de um austero vendedor ambulante de camisas que, de uma assentada só, decide sair de casa (naquela que, porventura, será a mais hilariante cena de "final de casamento" da sétima arte) e vender toda a sua mercadoria ao desbarato, comprando, em substituição, um restaurante (assim de rompante e sem que possua a mínima experiência na área); e a de um refugiado sírio, recém-chegado a Helsínquia, que foge do centro de acolhimento onde havia sido colocado pelas autoridades, após lhe ser recusado asilo político.

Aki Kaurismaki "brinca", por vezes até de forma "politicamente incorrecta", com os estereótipos inerentes à xenofobia e islamofobia (bem como se ri do "Sistema" e do Estado social) através desta minimalista e humanista comédia dramática (irónica e algo non sense), filmada (em película de 35 mm) no estilo "retro" que lhe é peculiar (particularidade essa que leva alguns a designá-lo de Wes Anderson finlandês), utilizando os seus actores de sempre e, claro, recorrendo aos célebres "separadores musicais" kitsch (aliás, tudo ali transpira a kitsch).
Deste modo, e dado que não encontro melhores palavras para descrever este filme do que aquelas que utilizei aquando do seu anterior "Le Havre" (2011), cito-me: " é puro surrealismo kaurasmakiano (com o tradicional gosto pelo absurdo, mas ao mesmo tempo, poético, romântico e "fantástico-realista"), com uma realização do gênero vintage, utilizando a sua típica luz difusa e artificial (pintado um produto sombrio, desesperançoso e melancólico), e actores "inexpressivos" (que de tão "feios/rudes" nos parecem poéticos e sensuais) quase tão inanimados (e ao mesmo tempo cheios de "interior") quanto os objectos que o realizador recorrentemente filma em grandes planos". E assim se constitui como uma fábula (caótica) dos tempos modernos.

Publicada a 29-10-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA