Pinóquio de Guillermo Del Toro

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Animação, Drama 114 min 2022 M/12 24/11/2022 MEX, FRA, EUA

Título Original

Sinopse

Uma nova versão do clássico infantil criado por Carlo Collodi em 1881 e publicado dois anos depois com ilustrações de Enrico Mazzanti. A contar a história do boneco de madeira que tanto queria ganhar vida e do velho Gepeto que ansiava ter um filho, estão os realizadores Guillermo del Toro (“O Labirinto do Fauno”, “A Forma da Água”) e Mark Gustafson (“The PJs”). Esta abordagem, apesar de um pouco mais sombria do que o conto original, não esquece a sua principal mensagem: o extraordinário poder do amor. Ewan McGregor, David Bradley, Gregory Mann, Finn Wolfhard, Cate Blanchett, John Turturro, Ron Perlman, Tim Blake Nelson, Burn Gorman, Christoph Waltz e Tilda Swinton emprestam as suas vozes às personagens.

Críticas Ípsilon

Pinóquio, um boneco de madeira entre os fascistas

Luís Miguel Oliveira

Guillermo del Toro é mais adulto a falar para crianças do que quando se quer dirigir a adultos.

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Críticas dos leitores

Guillermo del Toro Volta a Brilhar

Mário Ferreira

"Pinóquio", o último filme de Guillermo del Toro e Mark Gustafson, é, sem qualquer sombra de dúvida, a versão mais complexa, sombria e pungente, que alguma vez existiu sobre esta obra. Quem estiver à espera do Pinóquio de Carlo Collodi, ou da sua versão da Disney, pode, desde já, perder qualquer esperança.

Este é o Pinóquio do Guillermo del Toro, realizador que mais uma vez assume sem qualquer pudor ou temor, um universo assumidamente infantil, pleno de riqueza parabólica, apenas acessível a adultos, e não estou a falar de idade cronológica. Del Toro assume a realização de um filme em stop-motion, algo extraordinariamente difícil e complexo, e fá-lo com uma maestria irrepreensível. A coragem e o arrojo são qualidades tão escassas, que se torna imperioso o elogio.

O filme inicia-se, como expectável, com a morte de Carlo, o filho de Gepeto, mas logo aqui tudo se torna distinto da narrativa de Collodi, dado que nesta obra Carlo morre vítima de um bombardeamento. Aqui começa a análise meticulosa e genial sobre o amor parental e filial. Já sei, afinal o filme trata da incondicionalidade ou não do amor? Esse tema nunca é bem visto ou aceite, mas não estará del Toro a assumir despudoradamente um cariz autobiográfico do filme e, dessa forma, a conceder um caráter universal à obra? Aqui Pinóquio é criado por Gepeto durante a ditadura de Mussolini, algo que lhe confere uma nova camada de complexidade, completamente ausente na obra original.

A Pinóquio é conferida vida, e a hercúlea tarefa de se substituir a Carlo, como filho de Gepeto. Del Toro assume a opção de manter o Grilo Falante, personagem criada pela Disney na década de 1940. Contudo, o Grilo não se constitui verdadeiramente como a da voz da consciência. Na verdade, este assume um duplo papel de consciência e de contraponto de si mesmo, quase como uma contradição, aparentemente incongruente de Pinóquio.

Neste filme os dois amores são amores em espelho, o que amplia o horizonte da narrativa. Se por um lado Gepeto projeta em Pinóquio o amor que tinha por Carlo, por outro, Pinóquio tenta ser o filho perdido de Gepeto. Serão estes amores possíveis? Evidentemente que não, primeiro porque Carlo já não existe, e segundo porque Pinóquio não é uma criança. Toda a complexidade do amor parental e filial são explorados até ao limite do quase insuportável.

Outro aspecto extremamente interessante na obra é a exploração política do fascismo de Mussolini. Pinóquio, apesar de, até certo ponto, tentar ser uma criança, ele era, efetivamente, uma marionete. O que assume uma crítica política absolutamente mordaz e incisiva é o facto de Pinóquio, à medida que o argumento avança, ser o único personagem humano, dado que todos os outros assumiam um papel de marionetes, sob o jugo da ditadura.

Muito mais haveria a dizer sobre esta obra, mas não poderei deixar de, de forma emocionada, referir a crueldade e poesia com que a obra nos mostra que a incondicionalidade destes dois tipos de amor, não impede que possamos magoar quem mais amamos, e, mesmo assim, não deixarmos de amar e de sermos amados.

Como epílogo, gostaria apenas de referir que Guillermo del Toro, mais uma vez de forma absolutamente corajosa, permite que o filme termine sem que Pinóquio se transforme numa criança. Este é o derradeiro murro na mesa, da afirmação da persona de Pinóquio. Bravo, Guillermo!!!

 

 

 

 

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