Cinecartaz

Gabriel

Tarantino kitsch

Para aqueles que consideram "Pulp Fiction" (PF) um verdadeiro filme de culto, a saga "Kill Bill" (KB) só pode significar desilusão. Maior no caso do primeiro volume do que no segundo, mas, sempre, desilusão. Ao falar de KB, não consigo deixar de falar em PF, uma vez que foi através desse filme que conheci Tarantino e que passei a olhar para esse realizador como alguém a ter em conta no panorama cinematográfico norte-americano. Permitam-me, então, que estabeleça um paralelo, que considero ilustrativo: PF é um filme bem realizado, com personagens bem construídas e originais, um argumento minuciosamente estruturado e inovador, numa palavra, uma peça de arte (que não acredito ter sido obra do acaso). KB é um produto cinematográfico com todos os ingredientes típicos de um produto de Hollywood: cenas de violência (KB I é praticamente só isso); piadas fáceis e infantis (Uma Thurman - UT - a chegar ao bar, coberta de terra e envolta em poeira, e pedir uma bebida depois de se ter desencarcerado e desenterrado...); um argumento básico (matar o Bill), irrealista (UT sobrevive a tiros de caçadeira de canos cerrados), desconexo e moralista (no fim vencem sempres os bons e morrem os maus e UT agradece aos céus por ter conseguido matar Bill e deixar a vida de assassina profissional); tudo isto disfarçado de filme alternativo. Dito doutra forma, é um filme-produto "embalado" por Tarantino. É neste sentido que penso que KB é um filme Tarantino "kitsch": pega nos clichés que o próprio criou nos seus anteriores filmes e usa-os aqui sem conta, peso nem medida.
Os diálogos rebuscados, os tiques das personagens, os seus pormenores de indumentária e os seus perfis psicológicos, são em PF o "sal e a pimenta" que tornam o filme numa obra de arte e são o açúcar que torna enjoativo KB. Tarantino quis fazer de KB um filme Manga com personagens de carne e osso, fazendo uma transposição quase directa desse género de animação para o cinema tradicional e colocando-lhe ingredientes "made by Tarantino". Penso que falhou (embora as receitas de bilheteira me desmintam. Mas aí está, o que falhou foi a obra de arte, não o produto) e penso que o autor de PF podia ter feito muito melhor.
Quem gostou de PF dificilmente se agradou com KB. Para esses, resta a esperança que o Tarantino de PF não tenha sucumbido a Hollywood e que volte a emergir. Espero para ver!

Publicada a 19-06-2004 por Gabriel