Criticar a modernidade tornou-se um requinte de suposto bom gosto, em certos países mais do que noutros. A receptividade a este filme em Portugal é tão consequente como o sucesso das vendas online de artigos de "merchandising" do partido comunista, ou o fenómeno da literatura neo-marxista à "No logo". Assim será entendido este filme em Portugal. Se é legítimo e até conveniente lembrar hoje as vítimas do processo da modernização, sejam Sioux, tribos japonesas ou índios brasileiros, uma perspectiva que apenas enobrece aqueles que se interessam pelos crimes do passado, há também que relembrar os vícios e as misérias que ensombram esse passado longínquo. As sombras da opressão, ineficiência, miséria, não são objecto do filme. Nenhum de nós desejaria viver num país feudal e retrógrado onde a esperança de vida à nascença não ultrapassa os 30 anos. Nenhum de nós desejaria adoecer e ter de visitar um médico naquele país. Este filme tem um lado bom e um lado mau. O lado bom será percepcionado pelos americanos e japoneses (os portugueses não estão aparentemente interessados em criticar o seu passado criminoso no Brasil e em todos os lugares aonde foram). Receio que muitos de nós portugueses não vejam o lado bom (a crítica do nosso passado colectivo no Brasil não é objecto deste filme), mas apenas o lado mau deste filme - o anti-modernismo. Para além disso vejo o risco de a crítica ao passado americano ou japonês, resguardando as culpas portuguesas, tão graves ou mesmo piores, possa alimentar o sentimento anti-americano e anti-moderno de alguns sectores da sociedade portuguesa. Quem tiver consciência da verdade da nossa história saberá que se trata de um erro.
Joao Goncalves