Cinecartaz

cassandra moraes

... ou Intervenção Humana?

Tenho por hábito, ao ver um filme numa qualquer sala de cinema, procurar apagar da memória quaisquer dados socio-culturais acerca do realizador, mas em "Intervenção Divina", quando olhamos para Elia Suleiman, estamos a ver um povo inteiro e é, desde logo, impossível ignorar seja o que for e nada neste filme é despropositado.
A carícia quase sempre desesperada de duas mãos no interior de um carro estacionado junto a um posto de controlo entre Ramallah e Jerusalém é a metáfora perfeita para a contenção e a repressão de um sentimento religioso cujo único erro é ser apaixonado e pouco compreendido.
E se rimos porque um caroço de pêssego faz explodir um tanque esquecido, ou porque um militar israelita nos parece ligeiramente esquizofrénico ou porque um balão identificado como palestiniano é tido como uma ameaça para a segurança israelita, é porque tudo isto, que é a realidade quotidiana de um qualquer palestiniano, afigura-se-nos surreal e pungente, demasiado.
Rimos porque não queremos chorar, tentamos não mostrar a nossa impotência diante de imagens tão honestas. O mesmo faz a Palestina.

Publicada a 31-12-2002 por cassandra moraes