Cinecartaz

Pedro Brás Marques

A ida sem volta

A acção decorre em 1995 e tem como cenário o hediondo massacre de Srebrenica, onde pereceram assassinados 8373 bósnios, quase todos homens e muçulmanos, inserido na estratégia de limpeza étnica do exército sérvio, comandados pelo general Ratko Mladic. A história acompanha Aida, uma tradutora local ao serviço da ONU, no momento em que começam a chegar notícias de que os comandos sérvios se aproximam da cidade e a população, em fuga, procura refúgio junto da ONU, num aquartelamento próximo. E pedem mais: que a organização não só os proteja como também ataque os sérvios. A ONU promete que sim, mas a verdade é que, inoperante tal qual no passado, nada faz. Um mar de gente continua a afluir para ali, mas os Capacetes Azuis, sem experiência, constituídos por militares imberbes, também têm medo dos sérvios. Aida antecipa o desfecho e tenta salvar o marido e o filho, mas entre a burocracia e a indolência da ONU, acaba por os ver seguir com os milhares de outros, conduzidos pelos sérvios, para o destino final…

A dor de Aida perpassa todo o filme. Começa no desespero de os tentar salvar, passa pela sua perda e vai até anos depois, quando lhe pedem para examinar os restos de dezenas de cadáveres acabados de retirar duma vala comum… Claro que continua, mas há um sentimento de fim de ciclo, de que há que recomeçar a partir dali, como se confirma pela longa e perturbante, mas também injusta, saudável, positiva, inglória, cena final… O desempenho de Jasna Ðuricic é notável, duma força impressionante, mostrando todos os matizes do drama: o seu, o da sua família, da sua cidade, do seu país. O título do filme tem ressonâncias religiosas (apócrifas), citando a pergunta de Pedro a Jesus, a que Este respondeu, “Vou para Roma para ser crucificado”. A Aida do filme, caminha igualmente para a sua paixão, a sua crucificação: a dor imensa de perder a família

O filme é assinado pela realizadora bósnia Jasmila Zbanic, nascida precisamente em 1974, no ano em que nós, portugueses, cortámos com o passado e apostámos na construção dum futuro melhor, onde a Liberdade fosse a bandeira de orientação. Também ela narra uma história que tem um passado horrível, que há que recordar, mas que não pode ser impedimento para o futuro. Num estilo sereno, sem grandes dramatismos (nem sequer vemos o massacre correspondente das personagens retratadas, apenas o ouvimos…), mostra-nos o que aconteceu aos seus compatriotas e como se comportou quem tinha responsabilidades. Ou seja, num tempo em que “se não está filmado ou fotografado, não existe”, Zbanic trata os espectadores com respeito, confiando na sua inteligência para “verem” o que não é mostrado. E, como sabemos, o efeito da sugestão é mais poderoso do que o da exibição…

Um outro ponto de que é impossível fugir após a visualização de “Quo Vadis, Aida?” é a enorme semelhança entre os comportamentos que aqui vemos por parte dos carrascos sérvios e das vítimas bósnias, e os ecos doutros genocídios, nomeadamente o mais visualizado, o dos judeus às mãos dos nazis, mas também os que aconteceram no Ruanda e no Sudão, retratados em filmes como “Hotel Rwanda” e “The Good Lie”. O padrão comportamental é o mesmo, os actores parecem clones e as consequências idênticas – brutais e terríveis. E, no entanto, fica-se com a impressão que a comunidade internacional olha para cada uma destas situações como se duma novidade se tratasse… O filme expõe a incapacidade, a incompetência, a impreparação da ONU naquele cenário, que, claro, apenas faz eco da voz de quem está nas confortáveis salas de reuniões localizadas na 1st Av., em Nova Iorque... Porque aqueles milhares de bósnios morreram pelas balas dos sérvios, é certo, mas também pela incúria da ONU. Vale a pena olhar para o passado? Vale, enquanto lição para o futuro, jamais para ficar preso a ele.

Um belo e duro filme, que merecia uma atenção especial. E não falo só pela força da história, mas enquanto objecto cinematográfico, onde os vários elementos, desde a realização à interpretação, passando pelo argumento e pela reconstituição, são capazes de gerar emoção genuína e duradoura. Ou seja, cinema a sério!

Publicada a 21-06-2021 por Pedro Brás Marques