Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

O filme "Caros Camaradas", realizado pelo veterano russo Andrei Konchalosky, é um drama histórico (seco), filmado a preto e branco (o que lhe imprime uma aura - ainda mais - austera), que recua até junho de 1962, e mais concretamente à cidade de Novocherkassk na URSS, para dar-nos conta, através de uma recriação ficcional, de um massacre real aí ocorrido, levado a cabo pelo KGB (e abafado pela máquina comunista durante 30 anos), que disparou indiscriminada e aleatoriamente contra uma multidão de operários que exerciam o seu (alegado) direito à greve, resultando na morte de 80 desses manifestantes (cujos corpos foram enterrados secretamente em lugares desconhecidos).
O enredo principal centra-se em Lyuda (e é sob o seu olhar/perspectiva que assistimos ao desenrolar da História), uma comunista leal ao regime, funcionária do comité da cidade, adepta da adopção de medidas de punição severas contra aqueles que se desviem das orientações emanadas pelo Sistema (ultra-autoritário), mas que se vê confrontada com o facto da sua jovem filha integrar a massa de manifestantes (sendo, inclusive, uma das desaparecidas após a repressão estatal violenta).

O grande mérito desta obra advém (a par de alguns planos de excepção, como por exemplo, aquele em que assistimos, por detrás da janela de um salão de cabeleireiro, ao desespero dos que tentam fugir da praça) do modo inteligente (não maniqueista) como é explorada a dualidade de sentimentos da protagonista, que teima em manter-se fiel ao partido (mesmo após a partida de Estaline, o seu grande idolo), não aceitando quaisquer criticas externas contra o mesmo, apesar de perceber no quão patético/burocrático/"anti-povo" este está a transformar-se (quiçá, por não ter mais nada em que acreditar), e, por outro lado, encontra-se em pânico (sentimento que reprime conscientemente em prole da hierarquia) por receio do destino da sua filha.

Publicada a 11-05-2021 por José Miguel Costa