Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Detentor do selo de qualidade de Cannes e tratado como obra-prima nos festivais de Toronto (onde arrecadou o prémio da Imprensa Cinematográfica) e de San Sebastián (no qual foi distinguido com a Concha de Ouro), eis as credenciais de "O Começo", a primeira longa metragem da realizadora georgiana Dea Kulumbegashvili.

É uma obra para cinéfilos com estofo, que exclui logo nos primeiros minutos de exibição os ávidos de acção, bem como os receosos de escutar silêncios (por vezes, ensurdecedores) ou de percorrer milimetricamente com o olhar a sequência continua de (magnificos) longos planos fixos impregnados de uma estonteante/hipnotizante beleza crua não imediata e de "pistas não verbais" por/para descodificar.
Possui uma narrativa minimalista que dá primazia à linguagem estética (austera) em detrimento da gramatical, todavia quem tiver capacidade (ou paciência) para imergir (durante 130 minutos) no seu universo melancólico e cru jamais sentirá qualquer economia nas palavras

O Começo começa (redundância propositada com um intuito de - pseudo - estilo literário) com um ataque a uma igreja de Testemunhas de Jeová, inserida numa recôndita vila pobre dominada por cristãos ortodoxos. No entanto, a realizadora, ao contrário do expectável, não envereda pelos trilhos da intolerância religiosa, preferindo aproveitar o evento para "dissecar" a (sobre)vivência da solitária e ostracizada mulher do sacerdote (revelando-se, desse modo, como um filme eminentemente feminista de - quase - "personagem única", encarnado de forma sublime por Ia Sukhitashvili).

Publicada a 02-05-2021 por José Miguel Costa