Cinecartaz

Teresa Rosado

Nomadland

Nomadland (2020), o filme vencedor de três Óscares em 2021, melhor filme, melhor realização (Chloé Zhao) e melhor atriz principal (Frances McDormand), poderia muito bem ter o subtítulo Guia de como não desperdiçar a vida, porque, na verdade, esse é o tema aglutinador dos relatos que atravessam esta belíssima peça cinematográfica, onde a vastidão do oeste americano é também protagonista.
Aparentemente, o título faz alusão às noções de “homeless” ou “houseless”, que são referidas no filme, mas o seu alcance é muito mais abrangente, muito mais complexo. Nomadland é o espaço aberto a todos os que, por opção ou falta dela, abraçam um modo de vida diferente daquilo a que estamos habituados, sem uma casa fixa, sem um emprego fixo. Aqui, tudo é móvel. É com curiosidade e entusiasmo que rumamos com Fern (McDormand) nesta viagem por uns Estados Unidos, paradoxalmente, selvagens e domesticados por grandes empresas que providenciam emprego sazonal para que Fern, e outros, vão sobrevivendo e, ao mesmo tempo, consigam dar continuidade à sua jornada. Ao redor da fogueira, desfiam-se histórias de vida que têm em comum a busca de alguma paz de espírito que apenas a comunhão com a natureza pode oferecer, depois de as suas vidas terem sido tocadas pelo desalento ou até pela tragédia. São vidas envelhecidas na derradeira tentativa de aproveitar os últimos anos de forma livre, conhecendo lugares belos, sem restrições sociais, sem restrições laborais, despojadas de bens materiais que, afinal, não são assim tão necessários; não sem serem, também, apresentadas as adversidades que este modo de vida implica: o desconforto, o frio, o isolamento, a solidão. Neste contexto, há uma crítica latente, mas sempre presente, a um sistema social que não protege nem cuida dos mais velhos, os quais não vêm outra solução para as suas vidas senão meter o indispensável numa carrinha e fazer dela o seu lar.
Outro aspeto de nota prende-se com os laços de afetividade que se vão construindo pelo caminho entre Fern e outros nómadas. Um deles, Dave (David Strathairn), acaba por deixar a estrada pelo único motivo possível, a família, o nascimento de um neto que lhe dará a oportunidade de ser o avô que, como pai, nunca foi. Ao contrário, Fern perdeu todos os elos de ligação a terra segura. Família e Natureza parecem ser os grandes eixos de felicidade e realização do ser humano neste filme em que a complexidade dos motivos que levam sexagenários ao nomadismo é observada de vários ângulos, a partir de diferentes personagens e cuja estética nos cativa do início ao fim, quer pela lente elegante de Zhao, quer pela magnífica interpretação de Frances McDormand (não a via tão brilhante desde Fargo, 1996), quer por todos os testemunhos reais (Linda May, Charlene Swankie, Bob Wells) que nos são dados a conhecer e que conferem ao filme um tom documental (não será por acaso que os nomes Dave e Fern parecem diminutivos dos nomes dos atores que os representam).
Ainda que o filme abra com referência ao período da recessão de 2008 (Fern é uma das habitantes de Empire, obrigada a abandoná-la, devido ao encerramento da mina, propriedade da empresa mineira United States Gypsum Corporation - USG, onde o seu falecido marido trabalhava), dando a entender que, provavelmente, a única alternativa viável para Fern seria adotar um estilo de vida errante, percebemos, à medida que a vemos cada vez mais imersa no nomadismo, que acaba por se tornar uma escolha e não uma fatalidade, como o mostram duas sequências, determinantes na evolução da personagem: na sua primeira passagem de ano na carrinha ela está só e de semblante carregado. Da segunda vez, ela deixa o espaço exíguo da carrinha e percorre o parque com um foguete na mão, desejando feliz ano novo a todos os que ali se encontram, assumindo o seu estatuto de nómada e mostrando-se feliz com ele.

Publicada a 10-09-2021 por Teresa Rosado