Cinecartaz

José Miguel Costa

2 estrelas

Após o visionamento dos filmes "A Morte do Sr. Lazarescu" e "Aurora" fiquei fã do austero registo naturalista do realizador romeno Cristi Puiu (uma das suas imagens de marca), pelo que fui (desagradavelmente) surpreendido ao deparar-me com "Malmkrog" (aclamadissimo pela critica especializada), um "filme-teatro" de época (que retrocede até à Transilvânia invernosa do final do século XIX) composto por uma escassa sequência de uma dúzia de planos fixos (apesar dos longos 201 minutos de duração) filmados com uma precisão milimétrica (de incontestável beleza cénica). Uma obra palavrosa, destituida de qualquer acção e sentimento/dramaticidade (numa quase completa inversão dos mais básicos principios clássicos da sétima arte), que mais não é que um combate dialético (sob a forma de um contínuo chorrilho de exaustivos monólogos histórico-filosóficos de complexa apreensão para o "comum dos mortais") acerca da dicotomia dos subjectivos conceitos do "bem e do mal", ética, religião, guerra e politica, levado a cabo por um grupo de 5 convivas (que nem sequer nos são apresentados) de classe alta (de "fim de era") que se reunem para um ("afectado") jantar de Natal numa mansão aristocrática sita em Malmkrog (povoada por um exército de serviçais invisíveis, obrigados a cumprir as suas tarefas de um modo ultra ritualizado - constituindo-se tal "coreografia" como um dos aspectos mais interessantes de assistir nesta obra). Grosso modo, gastar dinheiro num bilhete para sairmos devastados da sala devido ao peso da nossa tremenda debilidade intelectual.

Publicada a 19-12-2020 por José Miguel Costa