Cinecartaz

Rui Soares

Auguri

Foi muito falada a atribuição do apoio estatal ao filme de Ana Rocha, numa corrente de eventos que hoje é resumida pela mesma como "Eu não pertencia ao meio e fui vista como uma ameaça". Quem sabe, sabe que não foi tudo tão preto-no-branco. Tendo acompanhado o caso por uma fatalidade do destino, hoje penso que o filme nasceu justamente nesse virar do bico ao prego. Ana Rocha criou uma abordagem para si mesma e depois cobriu-a com um filme. A arma foi a vitimização. Primeiro a sua, depois a das suas personagens. Mas o resultado tem valor? Decerto tem o mérito de se conseguir fazer ver. No entanto, por mais prémios que arrecade, sabemos que não estamos perante o mesmo quilate de cinema que Portugal tão bem tem exibido pelo mundo fora, que os prémios não são sobre o valor do objecto mas sim sobre o discurso que os rodeia. É um sinal dos tempos que convida a um jogo que é preciso saber jogar. Ana Rocha, neste filme, joga-o exímiamente.

Publicada a 03-10-2021 por Rui Soares