Cinecartaz

Fernando Oliveira

O sal das lágrimas

Serão os dias presentes, mas também podia ser um tempo incerto, filmados naquele preto-e-branco sujo que Garrel tem usado nos seus filmes, neste fotografado por Roberto Berta; mais uma deambulação narrativa pelos labirintos que desequilibram emocionalmente os seus personagens.
Luc (Logann Antuofermo) é marceneiro, vai a Paris inscrever-se numa escola para evoluir como artesão, é também a profissão onde ajuda o pai na cidade onde cresceu; conhece Djemila (Oulaya Amamra), e durante os dias que passa na capital francesa vão namorando, julgam que se apaixonaram. Quando regressa à terra Luc, reencontra uma antiga namorada da escola, Geneviève (Louise Chevillotte), e ele que é um personagem perdido nas suas indecisões começa a namorar com ela, abandona Djamila no dia em que ela vai procurá-lo; é aceite na escola de Paris, e nessa altura Louise anuncia-lhe que está grávida. Luc é uma daquelas personagens que evolui destruindo e destruindo-se emocionalmente, e abandona também Louise. Em Paris as coisas mudam, a nova namorada, Betsy (Souheila Yacoub) coloca-o numa situação de dependência amorosa; o pai (André Wilms, um actor espantoso), que durante o filme tenta ser uma âncora “moral” para o filho, chamá-lo a uma razoabilidade aceitável, vai ter com ele a Paris para uma intervenção cirúrgica; desta vez a cor da fotografia dos filmes de Garrel carrega também o peso da morte, o filme termina de forma brusca, uma frase que deixa Luc irremediavelmente sozinho.
Garrel olhou sempre para os seus personagens à distância, conta-nos os comportamentos, mostra-nos as consequências, abandona-os sem muita pena. Mas é um olhar ainda assim comovente sobre a instabilidade dos anos da juventude, como o que parece importante não tem importância nenhuma, e escolhas que fazemos sem pensarmos muito nelas nos definem a vida. Um olhar no limiar da perfeição formal e narrativa.
Conta a violência do embate entre o que desejamos e o que a vida nos dá. Escolhe a vertigem das relações sentimentais com rastilho para essa violência. Filma gente como nós, nada de extraordinário, mas nesse colher de histórias que pede emprestadas à vida, transforma-as pelo Cinema, em personagens extraordinárias.
É mais um filme de Garrel, parece-se com todos os outros é certo, mas é um filme muito bom, tão bonito quanto triste, ou muito bonito na tristeza que nos mostra; é Cinema.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 15-05-2021 por Fernando Oliveira