Cinecartaz

Guilherme Teixeira

Potencial desperdiçado

A opção de fazer o filme a preto e branco foi ousada e revelou-se uma cartada muito boa para a construção de época e para dar peso a cada cena.
As atuações são ok, convencem, mas onde ocorreram na minha opinião mais deslizes foi na história em si. O filme assume que o público já conhece ou a obra ou Fernando Pessoa e sua obra e por isso abstém-se de aprofundar o personagem de Ricardo Reis. Para quem conhece, conseguimos perceber e absorver o que realmente se está a passar com este heterónimo através dos seus comportamentos incoerentes com a sua tão conhecida personalidade. Contudo se uma pessoa ignorar o passado deste heterónimo a única coisa que vai captar é um homem de meia idade que regressou a Portugal, é mulherengo e tem jeito para escrever uns versos. Os pares românticos não são minimamente interessantes, ou melhor, são potencialmente interessantes, mas o filme não desenvolve as personagens femininas dando um ar de superficialidade.

João Botelho falhou também a identificar o que se pode transpor para a tela e o que não se pode transpor. Muitas vezes os diálogos pareceram demasiado superficiais e artificiais devido à necessidade que este sentiu de fazer uma exposição através dos diálogos sobre tudo o que estava a acontecer, até mesmo sobre as coisas que o público conseguia ver dando aquela sensação de precisar de passar a passadeira com ajuda de alguém. Outro ponto negativo é o facto de haver cortes que parecem muito distante uns dos outros. Por momentos parece que o filme tem pressa para chegar a um certo lugar dando por vezes a sensação que não estamos a seguir uma história Linear o que prejudica a imersão no filme.
Onde o filme ganha mais pontos é na interação Ricardo Reis e Pessoa, ambos trocam conversas que prendem a atenção e além de dar a percepção de uma clara relação de criador e criação, ao longo do longa vamos percebendo que é mais do que isso e Ricardo Reis não é apenas uma criação, mas sim um complemento.
Fazer uma menção honrosa mais uma vez à fotografia e à banda sonora.

Nota: 6
Estrelas: ???

Publicada a 03-10-2020 por Guilherme Teixeira