Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

Fernando Pessoa pariu-nos Ricardo Reis (um dos seus quatro “filhos”), o médico-poeta monárquico que se autoexilou, no ano da graça de 1919, em terras de Vera Cruz.
Dele não mais tivemos noticias, até que José Saramago, através do romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), o “expatriou”, 16 anos depois, para uma Lisboa sombria e deprimente, com o objectivo deste testemunhar in loco as maleitas que o fascismo andava a semear neste cantinho à beira mar plantado (e sobre as quais viria a desabafar – nos tempos livres entre as suas desventuras com “rabos de saias” -, através de longas dissertações poéticas, com o fantasma do seu criador, recentemente falecido).

Por sua vez, o João Botelho, que não se assusta com os pesos-pesados da literatura portuguesa (tal como já demonstrou nas suas últimas obras, em que “pegou pelos cornos” Agustina Bessa-Luis, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Fernão Mendes Pinto), agarrou no Nobel da Literatura e transladou-o para filme (não alterando o titulo original), quiçá como grito de alerta por a História dos populismos fascistas estar a repetir-se.

Numa pelicula estrelada por Chico Diaz e as musas Victória Guerra e Catarina Wallenstein, a protagonista é, sem dúvida, a “Palavra” (cuja beleza é realçada por uma carregada estética a preto e branco).

No entanto, tal como alega o ditado popular “tudo o que é demais sobra”, pelo que tanta poesia “pesada”, debitada em sucessivas cenas contemplativas, acaba por lhe retirar ritmo e intensidade dramática, tornando-a, inclusive, algo soporífera para os “espectadores menos letrados”.

Publicada a 06-10-2020 por José Miguel Costa