Cinecartaz

José Miguel Costa

2 estrelas

O filme "O Adeus à Noite" tem como cena de abertura o eclodir de um eclipse solar, numa simbologia demasiado simplista ao islamismo extremista, mas que também poderia ser utilizado como metáfora à carreira do seu realizador, André Téchiné, que já viu melhores dias (e apesar de em 2017 ter voltado à tona, através do afectivo "Quando Se Tem 17 Anos", parece que tal foi "sol de pouca dura").

O quadro narrativo desta obra explora a temática dos jovens franceses que, sem que nada o fizesse prever, passam a professar a religião islâmica e se radicalizam ao ponto de abandonarem para se juntarem às hostes do terrorista Estado Islâmico.
Neste caso somos confrontados com um jovem branco, louro e de olhos claros, que pretende lutar contra o infiel Ocidente (oferecendo-se como mártir). Todavia, para augurar tal designio necessita de dinheiro (que não possui), pelo que decide visitar a sua avó (Catherine Deneuve, a actriz fetiche de Téchiné), uma descendente de colonos (nascida na Argélia), com o objectivo de "extorquir-lhe" o necessário financiamento para a viagem rumo à Siria (justificando-se com a mentira de que pretende emigrar, conjuntamente com a namorada, para o Canadá).

Pese o facto do argumento (generalista e algo maniqueista - embora, pretenda disfarçá-lo com a introdução de deteminados personagens irreais no enredo) ter sido escrito com base em testemunhos de vários jihadistas arrependidos, não consegue ir além de um drama sem sal, ambiguo (ao nivel das mensagens que alegadamente pretende transmitir) e despersonalizado.
Salva-o a veterana actriz, que carrega toda a carga dramática aos ombros. O que não se revela suficiente, ainda mais quando, a somar a todos os handicaps mencionados, ficamos com a sensação de estarmos perante um deficiente trabalho de edição, que arrasa "momentos-chave".

Publicada a 18-08-2020 por José Miguel Costa