Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

Martin Eden", a primeira longa metragem ficcional de Pietro Marcello (coproduzida por Itália, França e Alemenha), é um drama de época, rodado em formato 16 mm (com un je ne sais quoi de estética nouvelle vague e de "neorealismo colorido"), que nos transporta até à Nápoles da primeira metade do século XX para acompanhar a evolução literária (e libertária) do protagonista que dá nome à obra.

O filme relata-nos a epopeia (com muitos cortes temporais, que o transformam num produto descontínuo e cheio de "buracos" que careciam de informação suplementar) de um self made made writter (um pobre marinheiro sem instrução que, por amor a uma jovem aristocrática, resolve de um dia para o outro - literalmente - tornar-se num escritor ... maldito ).

Apesar de revelar-se hiperbolicamente romântico (do género trágico e quase irrealista), bem como algo ambiguo em termos narrativos (nunca chegamos a concluir, em definitivo, se o Martin Eden é um socialista ou um individualista - já que vocifera contra a exploração dos eternos "escravos" por parte de uma pequena elite e, em simultâneo, prega as virtudes da meritocracia, desdenhando daqueles que acreditam nas virtudes de uma utópica igualdade), não deixa de ser interessante/apelativo. Graças à enxurrada de citações autorais, declamações e discursos inflamados e crus (algo soltos, é certo) com que somos "bombardeados" (e que nos impelem à reflexão).
Dois outros aspectos (positivos) merecem ainda realce, a interpretação de Luca Marinelli (que lhe valeu o prémio de melhor actor no festival de cinema de Veneza) e a inserção na narrativa de curtas sequências documentais (impactantes) captadas na época que retrata.

Publicada a 03-07-2020 por José Miguel Costa