Cinecartaz

Fernando Oliveira

Ema

Ema é bailarina e é casada com Gastón, o coreógrafo da companhia onde dança. Ele é doze anos mais velho. São responsáveis por uma situação terrível: devolveram uma criança que tinham adoptado depois desta ter incendiado e desfigurado o rosto de uma das irmãs de Ema. Depois disto o seu casamento entra em ruptura, com recriminações entre eles e o esmagador peso da reprovação dos outros.
Ema entra numa deriva física e emocional, com a cumplicidade das irmãs e de algumas amigas, e de um lança-chamas, vai incendiando coisas; e vai dançando os requebras sensuais do reggaetón. Inicia uma relação amorosa com a sua advogada do divórcio, e com um bombeiro e barman que apaga um dos fogos que ateou; até arranja uma namorada a Gastón.
Pablo Larraín estilhaça o tempo da narrativa, alucina as imagens que a contam, mas pouco a pouco percebemos que na deriva de Ema há um plano. Porque Ema gosta muito do filho que devolveu e quer que ele volte a ser seu, e esta história contada na cidade portuária de Valparaíso no Chile, entra assim nos terrenos do melodrama, de emoções excessivas, de amor e desejo. O filme acaba numa estranha família de seis pessoas…
É um olhar desconfortável sobre o peso das regras sociais, e como elas podem ser mais perversas, que a perversão delas. E tem uma interpretação à beira da vertigem de Mariana di Girolamo.
Perde o filme porque Larraín opta por se distanciar desta intensidade emocional, o seu olhar é frio e preso a uma ideia. Somos atraídos por Ema, mas repelidos pela forma como ela nos é contada.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 08-03-2021 por Fernando Oliveira