Cinecartaz

Fernando Oliveira

O filme de Oki

Nos filmes de Hong os homens são sempre um pouco ridículos, quase sempre por causa da insegurança que sentem junto às mulheres com quem se relacionam, e bebem que se fartam o que os torna ainda mais ridículos e inseguros. As mulheres também demonstram algum mal-estar mas são sempre mais seguras a lidar com isso.
“O filme de Oki”, que Hong Sangsoo realizou em 2010 e que estreou em Portugal este ano aquando da estreia de “A mulher que fugiu”, conta a estória um triângulo amoroso entre dois alunos de uma escola de Cinema (ela é Oki, ele é Jin-goo, mais tarde já realizador e também professor na mesma escola) e um professor dos dois (Song), e nela os dois homens são assim (inseguros, e bebem muito); e ela? Ela é Oki e nomeia o filme.
O filme está dividido em quatro partes, três são deles, a quarta parte é dela. Em “Um dia de encantar” Jin-goo é já um realizador, dá aulas na escola aonde estudou, é casado com outra mulher que não Oki e não parecem ser muito felizes, e o dia é tudo menos um dia bom: embebeda-se; confronta Song, agora colega, sobre dinheiro indevidamente usado; numa exibição de uma curta-metragem sua é questionado sobre uma antiga relação que não acabou bem. O tempo recua em “O rei do beijo”; Jin-goo é agora estudante, passa o dia beber e está perdidamente apaixonado pela sua colega Oki; o dia também corre mal, Oki rejeita-o (saberemos que acabou de terminar uma relação com um homem mais velho); não ganha o prémio de melhor filme entre os os seus colegas de curso; mas, a bebedeira dá-lhe sorte, passa a noite bêbado à porta da casa de Oki, e ela de manhã convida-o para entrar; fazem sexo. Em “Depois da tempestade de neve” o tempo volta a recuar, Oki e Jin-goo são os únicos alunos a assistir a uma aula do professor Song, perguntam-lhe sobre questões da vida; por esta altura já percebemos que Song irá ser “o homem mais velho” da vida de Oki.
O quarto segmento é “O filme de Oki”; ela mostra-nos o seu filme, e conta-nos a estória de dois dias, dois passeios a subir um monte, cada dia com um homem diferente, um a 31 de Dezembro com o professor Song, o outro dois anos depois, a 1 de Janeiro, com Jin-goo. Utiliza uma montagem paralela das duas subidas, conta-nos o que sentiu com cada um, os gestos, os toques trocados, o que eles fizeram de diferente e de igual. Utilizou, diz ela no final do filme, actores o mais parecido possível com as pessoas reais que viveram a subida, “mas os limites dessa semelhança podem reduzir o efeito da montagem das duas experiências vividas”.
Ou, não será que a desestruturação temporal, a fragmentação de pontos de vista que utiliza nos seus filmes, não é mais de que uma forma que o realizador encontrou para tentar chegar ao âmago da verdade que as imagens, ou seja o Cinema, contêm para além daquilo que contam? Uma verdade para além da narrativa e para além dos seus personagens?
Num Cinema em que a vida, os filmes, os filmes nos filmes, e a vida nos filmes, se confundem; um Cinema que gosta de filmar a insignificância do dia-a-dia, encontros na rua, conversas de café, muitas bebedeiras, discussões por tudo e por nada; vemos um dos mais espantosos estudos sobre aquilo que nos define como seres racionais, a banalidade mas também o nosso lado mais sombrio.
Um Cinema que parece não contar nada, quando conta quase tudo. “O filme de Oki” é uma filme absolutamente inteligente, e um dos melhores filmes de Hong.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 18-09-2021 por Fernando Oliveira