Cinecartaz

Pedro Brás Marques

One shot

Os conflitos armados e as histórias das situações-limite que eles proporcionam, continuam a ser um filão para o cinema, quer ficcional quer documental. O foco tem oscilado entre a Guerra do Vietname e a II Guerra Mundial, mas o primeiro conflito global, ainda hoje chamado de “Grande Guerra”, tem proporcionado excelentes obras, como “Horizontes de Glória”, de Stanley Kubrick”, ou “Galllipoli”, de Peter Weir e, em tempos mais recentes, o extraordinário documentário “They Shall Not Grow Old”, de Peter Jackson e, agora, este belíssimo “1917”, de Sam Mendes.
A trama do mais recente filme do autor de “Beleza Americana” e “007 Skyfall” conta-se em poucas palavras: a dois soldados britânicos é confiada uma missão quase suicida, a de alertar um regimento de 1600 camaradas de armas de que, caso avancem em determinado sentido, irão cair numa armadilha mortal. Só que, para tal, a dupla tem de atravessar não só a frente de batalha como território inimigo. E só tem uma oportunidade, "one shot".
É óbvio que, depois da crueza brutal do desembarque da Normandia reconstituído em “O Resgate do Soldado Ryan”, nunca mais o cinema de guerra foi o mesmo. E há instantes, em “1917”, que evocam o filme de Spielberg, em especial naqueles momentos de horror em que Morte se passeia, imperturbável, entre os soldados que tombam… São universos que se apagam, memórias que desparecem, como o cheiro das cerejeiras em flor… Não há, aqui, um sentido maior que não seja a confirmação do que já sabemos: a estupidez e o absurdo da guerra.
Mas tudo não passaria de mais um filme de guerra não se desse o caso de Sam Mendes querer mostrar o seu virtuosismo enquanto realizador e gestor hábil duma narrativa que teve como base a história do seu avô de ascendência portuguesa, combatente nessa guerra. É que “1907” é contado em "one shots", longos planos ininterruptos, colocando o espectador no centro da acção, quase como se fosse um actor invisível que acompanha as duas personagens da história. Com eles corre, com eles assusta-se, com eles sofre, com eles tem medo. E não foi preciso recorrer ao habitual plano subjectivo, pois bastou descê-lo para o nível dos olhos dos actores e manter o foco naquilo que os preocupa, ora o que está perto, ora o que se perde de vista no horizonte. Parece fácil, mas é terrivelmente complexo harmonizar dezenas de actores e centenas de figurantes em que uma simples falha, ao fim dum plano de quinze minutos, obriga a voltar tudo ao iníio… O resultado final é visualmente assombroso.
A técnica não é nova mas raramente é usada com tanta intensidade, até porque ao perder-se uma das características fundamentais do cinema, a montagem, se corre o risco de se estar a fazer “teatro filmado”… Estou a recordar-me, por exemplo, de “A Arca Russa”, de Alexander Sokurov, onde não raras vezes éramos perturbados por essa percepção enganadora. Mas há que realçar o mérito de Sam Mendes pelo uso sábio do estratagema, que funciona melhor em planos aparentemente “simples” como aquele em que os soldados, m conversa, vão entrando nas trincheiras. Um filme surpreendente, num tempo em que o cinema precisa urgentemente de voltar a oferecer ao público o que sempre foi a sua mais-valia: o deslumbramento ou, como agora se diz, a “magia”.

Publicada a 06-02-2020 por Pedro Brás Marques