Cinecartaz

Fernando Oliveira

1917

Uma coisa é indiscutível, “1917” é um prodigioso exercício formal. Só podemos imaginar a quantidade de horas necessárias para planear e encenar aquela quantidade reduzida de planos-sequência que depois a mesa de montagem tentou fazer parecer apenas um.
O problema é que o filme esgota-se nisso. Se a ideia de Mendes era colocar a câmara à altura dos personagens, essa é uma ideia falhada. Os preciosismos que definem os movimentos da câmara de filmar – as constantes ultrapassagens que esta e os personagens fazem uns aos outros; os travellings laterais ao movimento dos personagens – colocam o olhar do realizador “por fora” da história. “Deus” a olhar para os homens por detrás de uma lente. E isto leva a que quanto mais o realizador tenta sublinhar o absurdo e o horror da guerra, mais o filme resvala para um olhar artificial, e limpinho, sobre a loucura humana (não estremecemos com o barulho dos disparos, não “sentimos o cheiro” da pólvora e dos corpos em decomposição, a sujidade e o horror não se entranham em nós). Os actores são apenas peças desta encenação, não há personagens a habitar neles, servem apenas para fazer “avançar” a câmara.
Também é verdade que a História nos diz que a Primeira Grande Guerra foi muitas vezes decidida pelas ideias delirantes dos oficiais que, atrás das linhas da frente, não compreendiam o horror desta nova forma de combater, e continuavam a dar ordens como se estivessem ainda no século XIX, mas mesmo assim há algumas situações no argumento que parecem algo forçadas.
Enfim, uma enorme desilusão. Entediante.

Publicada a 05-02-2020 por Fernando Oliveira