Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

É impossível ficarmos indiferentes perante o novo filme do nonagenário Clint Eastwood (que, desta vez, coibe-se de dar uma perninha enquanto actor), "O Caso de Richard Jewell". Tal devesse sobretudo à boa história (chocantemente verídica) que lhe serve de base e não tanto à sua estrutura narrativa linear (que faz uso da conservadora fórmula hollywoodesca de exposição dos eventos através da simples ordem cronológica, sem quaisquer saltos temporais), previsível/cliché e até algo maniqueísta (assente em caracterizações pseudo-psicologizantes e estereótipos fáceis que colocam em confronto – com uma visão parcial e unidirecional - a vitima civil quase imaculada com “defeitos branqueados” versus maléficas instituições federais americanas/imprensa).
No entanto, apesar destes “handicaps”, acaba por não esparramar-se ao comprido, possivelmente, graças à performance segura do trio de actores (Paul Walter Hauser - candidato a óscar? -, Olivia Wilde e Sam Rockwell), bem como à inteligente/hábil inserção de registos humorísticos numa película marcadamente política.

Clint Eastwood relata-nos, mais uma vez, em coerência com o seu percurso cinéfilo pós “Gran Turino” (e que saudades da excelência do período pré “Gran Torino”!), a saga de um anónimo (anti) herói branco americano. Desta feita, um frustrado trintão gorducho, solteiro (que ainda vivia com a mãe), obcecado pela lei e ordem (cujo sonho era vir a pertencer às forças de segurança do Estado americano), que saltou para as luzes da ribalta, após em 1996 (durante os Jogos Olímpicos de Verão em Atalanta), ter encontrado no estádio uma mochila armadilhada e promovido a consequente evacuação dos populares (evitando, desse modo, a ocorrência de um maior número de vitimas).
Este acto de heroismo valeu-lhe um curto estado de glória, já que pouco tempo depois verificou-se uma fuga de informação para a imprensa que dava conta de que ele seria o principal suspeito do atentado terrorista em causa (dado que encaixava na perfeição no perfil de terrorista solitário adepto de uma sociedade securitária).

Publicada a 06-01-2020 por José Miguel Costa