Cinecartaz

Fernando Oliveira

La Quietud - spoilers

“La Quietud” é a história de uma inquietação. O amor entre duas irmãs, que a estremecimentos violentos, vai resvalar para o incesto. Tudo o resto, e tudo resto é a sombra esmagadora do fascismo argentino e o terríveis segredos que nos vão sendo revelados sobre o passado daquela família, fica lá atrás; mesmo que seja este resto que desenha o caminho para o desfecho da história.

La Quietud é o nome do rancho onde a família habita – os pais e uma das duas filhas, e os empregados. Tudo começa quando o patriarca da família sofre um ataque cardíaco durante um interrogatório sobre o método como se apoderou dos bens de presos políticos durante o regime militar e fascista na Argentina. A doença do pai faz com que a irmã mais nova que vive em Paris regresse à Argentina. Tudo isto aparenta normalidade. Mas a inquietude depressa toma conta da narrativa quando Trapero começa a semear a estranheza: as duas irmãs, Mia e Eugenia (Martina Gusmán e Bérénice Bejo, e a parecença física entre as duas actrizes não é o menos perturbante) masturbam-se as duas na mesma cama enquanto recordam situação igual na adolescência, quase não se tocam, mas não deixa de causar bastante desconforto; depois há toda uma enorme teia de mentiras, transgressões, silêncios e segredos revelados que até podem ser mentira.

Crimes de agora e os crimes do passado (e quanto sinistra é a personagem de Esmeralda, a mãe, interpretada por Graciela Borges) a destruírem a quietude aparente daquela família. Todos mentem e Eugenia mente à família quando chega de Paris e revela que contra todas as probabilidades está grávida, a descoberta da mentira vem da tragédia e provoca outras. Salto no tempo: meses depois em Paris, numa clínica de fertilidade, Eugenia transporta um embrião de Mia, a médica deseja boa sorte às mamãs. Cada um verá o que quiser, a mim parece-me que enquanto a imagem desvanece as duas irmãs beijam-se na boca.

É um filme sobre as mulheres da história, sobre as suas cumplicidades e sobre ódios (os homens da família, e que a rodeiam, os empregados, todos ficam fora de campo na história que o filme conta). Um filme sobre mentiras e coisas que não se contam. Será também um filme sobre coisas que se querem enterradas lá atrás , mas que voltam para nos assombrar, mas é na essência um filme sobre a vertigem do amor, todo ele.
Se um filme é tão mais importante quanto maior é perturbação que causa, quanto mais nos afecta, então este (mesmo nos seus defeitos, é por vezes redundante) é extraordinário nisso. Muito bom.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 13-03-2020 por Fernando Oliveira