Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Levezinho...

Um só dia e num par de horas, o mundo de Marco Montes sofre uma derrocada. Treinador-adjunto duma das principais equipas de basquetebol do campeonato espanhol, vê-se despedido por, num ataque de fúria, ter agredido o treinador principal. Para esquecer, embriaga-se e quando regressa a casa tem um acidente em que embate…num carro da polícia. Julgado sumariamente, é condenado a um trabalho comunitário invulgar: treinar uma equipa de basquetebol composta por deficientes intelectuais. A somar a tudo isto, a sua situação pessoal é complicada: ainda não se desligou da mãe e a companheira queria ter filhos, o que ele não quer, pelo que se afastaram.
É perante esta pesada carga nos seus ombros, que Marco vai procurar reerguer-se. E tudo começa lentamente a ganhar sentido quando ele se deixa envolver pelos jogadores que, na sua simplicidade de ver o mundo, apostando tudo nas relações pessoais, lhe dão uma nova esperança.
O final, completamente previsível, é impróprio para diabéticos, com todos os nós narrativos a serem desatados, alguns de forma improvável, mas ninguém leva mal pois estamos no território da comédia, ainda por cima leve, apenas entrecortada com ocasionais apontamentos dramáticos. O realizador Javier Fesser está habituado às comédias, em especial as de tom mais burlesco, pelo que aqui está como peixe na água. Já Marco Montes é interpretado por Javier Gutirerrez. O actor asturiano é um dos nomes seguros do cinema e da televisão espanholas e até já saltitou para Hollywood. Quem o viu em “O Actor”, há três anos, não terá dúvidas sobre a sua enorme capacidade dramática. Aqui, é ele que carrega todo o filme, num espectro interpretativo que vai das lágrimas ao riso, do desespero à felicidade. Alguns secundários compõem ajustadamente o ramalhete, mas os actores que encarnam os deficientes merecem uma menção honrosa, porque conseguem transmitir a humanidade e a pureza que lhes vai na alma.
É pena que esta história não tenha sido alvo dum tratamento mais realista e menos cor-de-rosa, porque havia ali ingredientes em quantidade e qualidade suficientes para elevar esta incrível história a outros patamares. Não me parece de todo necessário retratar deficientes intelectuais apenas nos seus extremos, ora engraçadinhos ora um peso para quem deles cuida. Recordo os espanhóis “Yo También” e “Leon y Olvido”, o francês “O oitavo dia” e, claro, o brilhante “A outra margem”, de Luís Filipe Rocha, que conta a maravilhosa história de amizade entre um portador de síndrome de Down e um travesti. “Campeões” cumpre o seu desígnio, o de divertir, o que faz na perfeição. Afinal, foi o filme espanhol mais visto (e o quinto absoluto) nas salas do país vizinho em 2018.

Publicada a 15-07-2019 por Pedro Brás Marques