Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

O filme "O Rio" do cazaque Emir Baigazin, que decorre numa despovoada e inóspita região desértica do seu pais natal e cuja narrativa nos expõe perante as metódicas/repetitivas e exigentes rotinas diárias impostas por um pai austero aos seus 5 filhos menores (privados de qualquer contacto com o exterior, uma vez que nem sequer frequentam a escola), constitui-se como uma espécie de parábola serena (impregnada de uma multiplicidade de simbolismos liricos) aos regimes ditatoriais (tendo por base os "tiques" desta familia patriarcal).
Tudo decorre na mais perfeita "harmonia" até que dois eventos, quase simultâneos, irão perturbar a "normalidade" infligida e a visão homogénea do seu (pobre e inocente) mundo, mais concretamente, a descoberta de um rio mesmo à beira da sua casa (cuja existência até então havia sido escondida por parte do progenitor) e a visita inesperada de um primo citadino que lhes "apresenta o progresso" sob a forma de um tablet e um overboard. E a partir daí tudo irá ... ficar "igual"?

O grande triunfo desta obra encontra-se no seu rigido e irresistível formalismo estético, que "usa e abusa" dos seus planos fixos e personagens imóveis colocados geometricamente na tela e pincelados por melancólicas tonalidades arenosas de castanhos, beges e cinzas (revelando-se, desse modo, como um quase desfilar contínuo de - magnificos - "quadros vivos", que nos inundam a retina ao ponto de até termos receio de pestanejar, não vá dar-se a tragédia de perdermos algum pormenor pictórico).

Publicada a 13-05-2019 por José Miguel Costa