Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

O filme "Em Chamas", do sul-coreano Chang-Dong, é um enigmático triller psicológico com um ritmo e caracteristicas peculiares, que se constitui como um excepcional exercicio de observação humana que testa os limites da nossa própria percepção. Grosso modo, (um quase) "slow cinema" que se desenvolve sem pressas (atento aos pequenos e, não poucas vezes, poéticos pormenores), destituido de reviravoltas mirabolantes, mas impregnado de um inteligente suspense asfixiante que nos induz a sugestão permanente de que algo gravissimo aconteceu, ou está prestes a acontecer a qualquer momento, mesmo quando objectivamente "nada de visivel" está efectivamente a ocorrer.
Tal verifica-se graças à sua sofisticada/complexa (apesar de simples na aparência imediata) construção narrativa, impregnada de metáforas (sobre múltiplas temáticas) e ambiguidades (sobretudo de indole comportamental), aberta a iúmeras leituras. Nada é linear e/ou evidente (até porque o seu trio de personagens base é composto por sucessivas "camadas", que jamais serão "descascadas" na integra), pelo que damos connosco numa incessante especulação, vitimas do constante lançamento de subliminares pistas obscuras e imprecisas (ou até simples "silêncios reveladores") por parte do realizador.
Portanto, uma narrativa que se destaca mais pela forma como é alinhavada do que pelo enredo propriamento dito (cuja acção se desenrola em torno de um relacionamento - pseudo - amoroso, subtilmente conflituoso, entre três jovens provenientes de realidades sociais distintas e o, posterior, "desaparecimento" de um deles).

Saliente-se ainda que a narrativa é abrilhantada por magnificos (longos) planos-sequência (que alternam entre a filmagem sob a forma de câmara fixa e em câmara de mão) e uma excelente fotografia em luz natural, que transformam a película numa experiência sensorial inesquecível.

Publicada a 16-05-2019 por José Miguel Costa