Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

Roma, 3 de julho de 1990. Não há italiano que se preze que não esteja com os olhos pregados na tv para assistir à final do mundial de futebol que opõe as selecções da Itália e Argentina. Um dos locais públicos em que uma pequena multidão se juntou para a festa é ensombrado, em simultâneo, por um golo do deus Maradona e pela queda de um carro descontrolado no rio próximo de si. No interior do mesmo jazia, vitima de um alegado assassinato, Soporano, um outrora importante produtor cinematográfico, entretanto falido e caido em desgraça. No imediato são detidos 3 jovens (um naif intelectual idealista; um bon vivant playboy suburbano; e uma neurótica, viciada em medicamentos, com trauma de ser filha de papás milionários) que se haviam conhecido recentemente, enquanto vencedores finalistas de uma cerimónia de entrega de prémios para argumentistas de cinema. E a partir daí, grosso modo, o filme de Paolo Virzì, "Noites Mágicas ", não e mais que um enorme flashback que relata o periodo que medeia entre a data da união do trio e o momento da morte do dito cujo.

Trata-se de uma comédia de época ligeira, com o seu quê de filme noir, que satiriza a crise identitária do fim da era de ouro do cinema italiano. E apesar do seu registo algo brejeiro, bem como do enredo previsivel e das suas personagens caricaturadas em excesso, acaba por ser uma obra relativamente interessante ao nivel do conteúdo. Na medida em que a "brincar" (e como é divertido ver por lá desfilar os podres e virtudes de alguns actores e realizadores de topo ou daqueles ainda desconhecidos à data) vai dando umas ferroadas certeiras no "estado da bela arte" (que se transformou "numa fábrica de encher chouriços" porque os velhos instalados do Sistema "desistiram" de ser criativos, vivendo à sombra dos louros grangeados no passado ... e culpando a eclosão da tv por "todos os males e mais algum").

Publicada a 22-04-2019 por José Miguel Costa