Cinecartaz

Fernando Oliveira

Asako 1 & 2

Há filmes aonde é muito bonita a forma como agarram nas histórias dos seus personagens, as suas alegrias e tristezas, amores e desamores, em acontecimentos que definem as vida quotidiana de quase toda a gente, e depois, e é essa a magia do Cinema, as tornam em histórias extraordinárias com personagens extraordinárias. Filmes com histórias que nos “puxam” lá para dentro, filmes em que esse realismo carrega sempre um certo mistério.
“A hora feliz” de 2015, o outro filme de Ryûsuke Hamaguchi que conheço era um desses filmes. Assim também é este “Asako 1 & 2”.
Asako (Erika Karata) e Baku (Masahiro Higashide) apaixonam-se na primeira troca de olhares; começam a namorar mas um dia, sem explicações, Baku desaparece; anos mais tarde já em Tóquio Asako encontra Ryôhei um rapaz fisicamente igual a Baku; os dois começam a viver juntos, sem inquietações, mas deixando-nos a nós a questionar a estranheza daquele amor “duplo”; até que Baku, entretanto tornado uma vedeta da publicidade e da televisão, reaparece e vai ter com Asako quando esta comemora com Ryûhei os amigos o seu noivado e o regresso a Osaka para uma nova vida; e Asako escolhe ir com Baku, abandonando o noivo e o amigos; arrepende-se na manhã seguinte e vai procurar Ryûhei na casa que tinham comprado. No final, diz Ryûhei sobre o rio que corre junto à casa: “é um nojo”, diz ela: “sim, mas também é belo”…  

É um filme que consegue harmonizar o realismo dos acontecimentos e rituais do dia-a-dia com uma espécie de estranheza fora da realidade (a forma como Asako e Ryûhei se encontram quando este deambula após o terramoto), aonde há uma personagem feminina que parece tão frágil, uma fragilidade em conflito com a força que tem de ter para enclausurar em si as inquietações e os estremecimentos que estas lhe provocam. E que vai amadurecendo sem nós darmos por isso.
Um filme de uma beleza quase embriagante.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 10-05-2020 por Fernando Oliveira