Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Nunca é tarde para voltar a amar...

A passagem do tempo e o consequente e inevitável acumular dos anos leva a que se perca uma certa vontade de viver, dando lugar à acomodação e ao conformismo. Incluindo ao nível amoroso.
Chela e Chiquita vivem juntas há muitos anos, mas os tempos de desafogo acabaram. Estão na casa dos sessenta, ainda vivem numa mansão, com a tradicional empregada da família, mas os sinais de decadência são já evidentes. Por um lado, a enorme casa também apresenta sinais de velhice e as duas vêm-se obrigadas a vender o recheio para poderem sobreviver. As coisas complicam-se quando Chiquita tem de cumprir pena de prisão, por fraude, deixando Chela sozinha e entregue à sua nova atividade de motorista para senhoras idosas da alta sociedade local. É neste contexto que conhece uma mulher mais jovem, Angy, cheia de energia e de sensualidade. E Chela acaba por ficar fascinada por ela…

Macelo Matinessi construiu uma bela história, quase exclusivamente feminina, com aquela descomplicação típica das coisas simples da vida. Chela é uma mulher educada e doce, de trato afável e que como qualquer um de nós tem direito à sua parcela de felicidade. E parece encontrá-la em Angy, mas ela é heterossexual e, pior, do seu ponto de vista, bem mais nova. Chela nunca arrisca, nunca força, espera que as coisas se alinhem naturalmente talvez pela mentalidade herdada por alguém que nunca teve privações, aguardando que tudo lhe venha cair nas mãos...Ou talvez seja apenas vergonha… Esse projecto de paixão, de cor e de liberdade, contrasta fortemente com a relação com Chiquita, que está numa prisão, mas que porventura a tinha enclausurado há muitos anos, por via da sua personalidade algo dominadora. É entre estas dualidades que Chela se vê e não tem coragem para decidir, como se tivesse vontade mas não capacidade para ser senhora do seu destino.

O realizador uruguaio apresenta-nos esta visão da sexualidade e até da homossexualidade em idade bastante adulta, fazendo-nos ver que não é a passagem do tempo que nos faz esmorecer o mais nobre dos sentimentos que podemos ter por outrem, o Amor. “Nunca é tarde para começar de novo”, avisa a promoção do filme. Imagens de rostos, mesmo em ambientes fechados, como no interior dos carros, chamam-nos a atenção para o essencial, os olhos e as expressões das personagens, em especial os de Chela, numa composição suave, quase discreta, mas plena de subtilezas, de Ana Brun, que lhe valeu o Urso de Prata do festival de Berlin. Foi o primeiro trabalho desta também advogada, sendo certo que o próprio filme saiu da capital alemã com um Urso de Prata.

Ao contrário do cinema brasileiro e argentino, razoavelmente conhecidos entre nós, o paraguaio ainda é um mistério, Pode ser que este “As Herdeiras” seja a chave para nos abrir a porta para esta cinematografia que, pela amostra, promete imenso.

Publicada a 07-04-2019 por Pedro Brás Marques