Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

A realizadora libanesa Nadine Labaki já havia accionado o “radar dos cinéfilos” com os seus anteriores filmes (“Caramel”, “E Agora Onde Vamos”), no entanto, apesar disso, nada fazia antever que evoluísse qualitativamente, de um modo tão abrupto, para uma obra com as características de “Cafarnaum” (que não pede licença para atingir-nos com um violento murro no estômago).

Trata-se de um melodrama puro e duro (com uma certa estética documental, captada por uma câmara naturalista de ritmo ágil, que nos brinda com planos visualmente avassaladores) cuja acção decorre num infernal subúrbio de Beirute e tem como personagem central um (super) menino de 12 anos que decide processar judicialmente os seus pais negligentes por o terem trazido ao mundo sem que tivessem o mínimo de condições financeiras e emocionais para criá-lo de forma condigna (condenando-o, desse modo, a uma “vida de martírio” irreversível).

Cafarnaum possuía todos os ingredientes para descambar num registo novelesco (tal é a sucessão de tragédias que recaem, em catadupa, sobre a inocente criança – e das quais vamos tomando conhecimento através de um longo/eficaz flashback), todavia, consegue escapar à armadilha da simples exploração lacrimejante da pobreza extrema, graças a um excelente doseamento da carga dramática (encadeando com delicadeza - e sem maniqueísmos excessivos - momentos de subtil beleza) e a uma montagem inteligente (que opta por planos curtos – com cortes abruptos nos momentos mais “hardcore”).

Realce-se ainda a excelente fotografia e, obviamente, o prodigioso pequeno (não) actor Zain Al Rafeea que instintivamente inunda a pelicula, simultaneamente, de “doçura” e adrenalina.

Publicada a 07-02-2019 por José Miguel Costa