Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Ao visualizar o trailer da nova pelicula do realizador Yorgos Lanthimos (“A Favorita”) fiquei algo apreensivo, por constatar que alegadamente poderíamos estar em presença de um típico produto cinematográfico de cariz histórico sobre um determinado período da monarquia inglesa. Tal significaria que o ácido e perverso grego (que nos brindou com os excepcionais filmes autorais “Canino”, “A Lagosta” e “O Sacrifício de Um Cervo Sagrado”) havia cedido ao mainstream? Felizmente, as minhas reticências prévias revelaram-se infundadas, pois apesar de estar “mais acessível”, continua cínico e absurdo em doses cavalares (embora, seja igualmente verdade que a sua "veia" mais non sense e niilista encontra-se algo amenizada), tendo parido aquele que, porventura, poderá caracterizar-se como o filme de época mais “anti-clássico” e politicamente incorreto de todo o sempre.

Remontando ao século XVIII, e tendo por base a história verídica da rainha Ana de Inglaterra (que “enfeita” com exagero/deboche para hiperbolizá-la, através do seu característico recurso ao “realismo distorcido”), efectua de um modo satírico, impregnado de cru humor negro, uma critica virulenta aos “bons costumes” e às manobras politicas de bastidores levadas a cabo pelos membros que parasitavam em torno dos inenarráveis monarcas-fantoche (alheados por completo da realidade no seu submundo de luxurias).

É um filme predominantemente feminino (no qual os personagens masculinos surgem como meros acessórios), no qual brilha com uma intensidade quase ofuscante a tríade formada por Olivia Colman (a rainha louca “sem opinião própria” – não bafejada pela genética -, fã de coelhos e vaginas), Rachel Weisz (a maquiavélica Lady Sarah, que “fazia gato-sapato” da monarca, influenciando-a em beneficio próprio, a troco de préstimos sexuais) e Emma Stone (a inteligente e dissimulada prima da “favorita”, que após chegar ao palácio, para servir como criada, começou lenta e insidiosamente a roubar a “atenção” da velha senhora, conseguindo tornar-se sua dama de companhia – provocando necessariamente uma guerra velada sem tréguas na “coelheira”).

O “exagero” não se cinge apenas à narrativa (dotada de alguns deliciosos diálogos não recomendáveis a menores de 16 anos) ou às personagens (necessariamente estereotipadas e “caracterizadas ao limite”), estendo-se aos sumptuosos figurinos e “cenários garridos” que sobrecarregam a iris de maravilhamento (sendo tal potenciado pela excelente fotografia e a sublime filmagem com lente angular).

Publicada a 08-02-2019 por José Miguel Costa