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Fernando Oliveira

Correio de droga

Que desde que deixou de representar nos seus filmes (em "Gran Torino", 2008), todos os que dirigiu depois, uns mais que outros, foram decepcionantes (mas também é verdade que antes tinha criado obras magnificas como "Mystic River" ou "A Troca", aonde também não representava), será uma questão de gosto, mas é o meu gosto. Que muitos dos seus filmes maiores são aqueles onde o realizador Clint Eastwood filma o actor Clint Eastwood a representar a personagem Clint Eastwood, ou como a confusão entre o homem e a sua persona têm uma dimensão essencial nos seus filmes, também me parece indiscutível. Posto isto, "Correio de droga" é um belíssimo filme, onde Eastwood volta a ser actor nos seus filmes e onde onde uma das coisas mais comoventes é o confronto entre esta ideia lendária do realizador e do actor e a debilidade resultante da sua idade.

Eastwood (88 anos de idade) conta-nos a estória de Earl Stone, um floricultor do Illinois, que depois da falência do negócio, se vê desprezado pela família que negligenciou durante toda a vida (no inicio do filme, 10 anos da estória contada no filme, vê-mo-lo a faltar ao casamento da filha por causa de uma feira onde recebeu um prémio); com 90 anos aceita trabalhar para um cartel de droga mexicano a transportar droga do sul dos EUA para Chicago, é escolhido por ser um "homem velho e branco" que nunca foi multado.

Ora o que faz Eastwood com um personagem tão amoral e "fora" do conservadorismo radical que o caracteriza? Vai usando a comédia e o sarcasmo, mas também a sua espantosa qualidade para retratar as tragédias mais íntimas do seus personagens, para desmontar o "peso" que acompanha Earl. Tanto brinca com os estereótipos raciais e sexistas em duas ou três cenas tão divertidas como inteligentes; como expõe o racismo entranhado na sociedade americana (o mexicano mandado parar pela policia e diz que "estatisticamente são os cinco minutos mais perigosos da sua vida"). Tanto aligeira progressivamente a relação de Earl com os traficantes, que chega à amizade; como encena o essencial do filme, a procura de uma redenção por aquele homem que o vai levar a um regresso à família num percurso quase sacrificial e sacro (até no simbolismo, na última viagem, depois de agredido e antes de ser preso, conduz com o sangue a correr pela cabeça). Há em Earl a necessidade de corrigir-se, tanto de perdoar-se como que o perdoem, e, quando é preso, quando já foi aceite pala família, dá-se como culpado, um homem cansado de si mesmo encontra a paz a cuidar das "suas" flores na prisão. Um final muito belo de um filme encharcado num realismo pungente que nos inquieta e perturba.
"em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 14-02-2019 por Fernando Oliveira