Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

Quem conhece a obra do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan já sabe ao que vai se, porven(a)tura, decidir dirigir-se a uma sala de cinema para visionar o seu mais recente filme, "A Pereira Brava".
E sim, ele continua contemplativo em demasia, mas sem aborrecer, pois, como é seu apanágio, consegue manter-nos cativos através da introdução amiúde de pequenos apontamentos de grande humanismo, bem como pelo romantismo com que a sua câmara sorve a poesia melancólica do ambiente rural decadente (apesar disso, em definitivo, não havia necessidade de distender-se ao longo de 188 minutos).

O filme, que tenta seguir uma estrutura romanesca (acompanhando o retorno de um pouco empático e ambivalente jovem recém licenciado - deliciosamente indefinível - à subdesenvolvida vila natal que abomina, e consequentemente ao seio familiar que menospreza, sem grandes perspectivas de futuro devido à "hereditariedade do ciclo da pobreza"), no fundo revela-se como uma espécie de manifesto sobre o "estado da nação".
De facto, o realizador não perde uma oportunidade (por vezes, "introduzida à "papo seco") para colocar o seu protagonista a dissertar filosoficamente (e sempre sob uma perspectiva critica e desencantada), com aqueles com que se cruza alietoriamente, sobre as mais diversas temáticas (nomeadamente, politica, religião, educação e arte). Todavia, tal densidade narrativa, excessivamente retórica e algo anti-natura para o contexto em que decorre a acção, vai-nos criando a sensação de que "não bate a bota com a perdigota".
Independentemente destes excessos e desequlibrios, é impossivel não valorizar este filme no seu todo (como resistir, por exemplo, à divinal cena de encerramento?). E, sob esta perspectiva, ninguém o caracteriza melhor que o critico Luis Miguel Oliveira "é composto por momentos bonitos e por momentos desnecessários, e para se aceder a uns tem que se aceitar os outros".

Publicada a 01-04-2019 por José Miguel Costa