Cinecartaz

Pedro Brás Marques

«ROMA é AMOR lido ao contrário

"ROMA é AMOR lido ao contrário". Esta frase que os actuais romanos da Lazio gostam de lembrar, serve como uma luva para sintetizar o argumento do mais recente filme de Alfonso Cuarón, passado noutro continente, no bairro (“Roma”) duma cidade também ela com muita história, a antiga Tenochtitlán, actual Cidade do México.

É nesse bairro que, no início da década de 70 do século passado, vive uma família da classe média: um casal, ele médico e ela dona de casa, quatro filhos e a avó materna dos miúdos. E vivem ainda duas empregadas, Adela e Cleo, esta a protagonista de “Roma”. Tem as iniciais da antiga rainha do Egipto, mas na verdade chama-se Cleodegaria, o que não a torna menos nobre. Porque ela é a bondade encarnada. Cleo não se exalta, não se perturba, trata toda a gente como se fossem boas pessoas. Conforma-se com a sua situação, tenta resolver os problemas à sua maneira e ajudar os outros conforme pode. As crianças adoram-na e os animais vêm lamber-lhe a mão. As mulheres da casa também, incluindo a mãe das crianças, algo irresponsável e vazia, ironicamente chamada Sofia. Cleo é a coluna que segura toda aquela estrutura que, emocionalmente, está à beira da rutura, quando o pater famílias resolve virar as costas a todos e ir viver com a amante… Pelo meio, Cleo engravida mas isso não perturba o seu dia-a-dia e o seu trabalho transformado em missão. Chega a confessar que preferia não ter sido mãe a perder a sua vida rotineira.

Nada parece afectá-la e até os elementos se curvam perante Cleo. A terra entrou em ebulição sísmica quando ela visitava o hospital mas os escombros não lhe tocaram. O fogo que ardeu na quinta também a deixou intocada, bem como às crianças. E a água respeitou-a quando teve de entrar mar dentro, qual Moisés, sem saber nadar, numa das mais belas cenas do filme. E o ar? O ar transmite sons e cheiros, que ora lhe recordam a infância, ora anunciam sabores e aromas perfeitos. Cleo é o ponto de equilíbrio natural, como o demonstrou no exercício de artes marciais, é o “quinto elemento”, o amor, que tudo une e que tudo salva, mesmo que tal aconteça ao seu ritmo, lento e pausado (“Gosto de fingir de morta”…). Ela é a luz, ao contrário , por exemplo, do mordomo Mr. Stevens, de “Os Despojos do Dia”, uma personagem também religiosamente dedicada à usa profissão mas mergulhada em escuridão. Tudo isto numa mulher com apenas metro e meio de altura, como acontece com os descendentes directos dos povos pré-hispânicos, como é o seu caso, uma mixteca.

Este “Roma” foi para o realizador Alfonso Cuarón um projecto pessoal, um filme literalmente de autor pois a fotografia, o argumento e a realização têm a sua assinatura, além de ser, também, um registo semi-autobiográfico da sua infância, uma homenagem a “Libo”, a empregada de casa dos pais, à imagem da qual construiu Cleo. Filmado a preto-e-branco, acentuando um tempo que já foi, Cuarón conta a história da empregada quase à velocidade dela. Planos fixos (“paralíticos”) extremamente cuidados, onde se aguarda que as personagens entrem no campo de visão e longos travellings que sublinham a continuidade e fluidez da história são as principais opções visuais do realizador. Por outro lado, sabiamente, Cuarón estruturou dois espaços distintos, dentro e fora de casa, como que representando, cada um, o paraíso da protecção maternal e o inferno e os perigos do exterior. O ritual da entrada do carro na estreita garagem é quase um marco de fronteira entre esses dois mundos. Mas “Roma” funciona também pela interpretação suave de Yalitza Aparicio, que dá vida e alma a Cleo. Com ela rimos e com ela chorámos, desejando que, também nós, pudéssemos ter tido um anjo da guarda semelhante..

Publicada a 27-12-2018 por Pedro Brás Marques