Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Em 2001 o mundo abriu as portas ao mexicano Alfonso Cuarón após este ter mostrado a sua sensibilidade cinéfila com "E a Tua Mãe Também" (até agora o seu pequeno grande filme). Com a hollywoodizacão tornou-se um virtuoso técnico (veja-se o exemplo do multi-oscarizado "Gravidade"), mas perdeu a "essência".
No entanto, "o bom filho à casa torna", pelo que na sua mais recente obra, "Roma", regressa ao país natal (e à sua língua materna) para partilhar connosco, de um modo pessoal e intimista (até porque a película é assumidamente autobiográfica), o carinho que nutre pela empregada doméstica nativa que o acompanhou durante toda a sua infância (e para o efeito não deixa nada em mãos alheias, acumulando os papéis de realizador, argumentista, produtor, director de fotografia e editor).

"Roma" é um regresso ano de 1970 e, mais concretamente, à casa do bairro de classe média (que dá o nome ao filme) na qual foi criado por três mulheres (a mãe, a avó e a doce, e sempre omnipresente, empregada interna, Cléo).
Recria a ("banal") rotina diária deste núcleo de mulheres (que tinha a seu cargo a tarefa de criar quatro crianças) sob a perspectiva/"olhar" da sua amada Cléo.
É um filme sobre laços e memórias melancólicas/nostálgicas da infância (sem intenções de ultrapassar o limiar do "drama subtil"), que se revela como uma autêntica ode à simplicidade (mas que, em simultâneo, possui algo de épico), com uma narrativa construída (sem pressas) quase exclusivamente a partir de pequenos momentos (embora não abdique de "dar pequenas bicadas" no espectro sociopolítico que se vivia à época).
Todavia, e acima de tudo, é uma obra de cariz eminentemente sensorial, destacando-se a "mágica" fotografia (em 65 mm) a preto e branco, bem como o notável uso do plano-sequência (associado ao recurso esporádico de panorâmicas de quase 360°) - que se constituem como pura poesia visual que vai desfilando perante os nossos olhos maravilhados.

Publicada a 19-12-2018 por José Miguel Costa