Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Ser homem

Quando é que um homem realmente agarra o leme na viagem da sua vida? A partir de que momento é que passa a ser ele próprio e não apenas aquilo que os outros o vão permitindo ser?
Marcello é um tratador de cães num subúrbio pobre de Roma. Tem uma grande paixão pelos canídeos, tratando-os com carinho e ternura. Uma dedicação literalmente canina... Separado da mulher, nutre igualmente um enorme amor pela sua filha, com quem planeia viagens e aventuras. Mas Marcello é um pobre diabo. Fisicamente frágil, olhado pelos outros com condescendência, vai tentando agradar e ganhar a amizade dos demais através de favores e esquemas, incluindo o fornecimento de pequenas doses de cocaína, em especial àquele que considera o seu grande amigo, Simoncino, mas que também é o seu Nemesis. Este ex-boxeur, um brutamontes sem valores ou princípios, é o oposto do delicado e solícito Marcello, abusando do “Dogman”, oprimindo-o fisicamente, desprezando-o e humilhando-o. Mas Marcello tem uma dependência psicológica por ele e chega a cumprir um ano de cadeia por ter sido incapaz de denunciar Simoncino por um crime que este cometeu. Mas, no final do cumprimento da pena, Marcello já não é o mesmo. O tempo atrás das grades, somado ao facto de, uma vez cá fora, se ter tornado pária para toda a comunidade, tudo isto o faz rever a sua relação com os que o rodeiam, em especial com Simoncino. E o esquelético Dogman inicia uma nova atitude perante a vida em que, mais do que uma vingança, vai encontrar-se consigo próprio, de consciencializar o seu valor e finalmente fazer a paz com a sua dignidade ferida.
Depois do fabuloso “Gomorra”, tendo como cenário a Camorra napolitana, Matteo Garrone volta ao mundo do crime, com aquele discutível intervalo para o fausto e o fantástico de “O Conto dos Contos”. “Dogman” é passado nos bairros sujos da grande cidade em que a pequena criminalidade impera, onde emergem e proliferam as claques de futebol, os ginásios de cabeças-rapadas e os bares manhosos. A decadência está por todo o lado, como nos recordam as poças de água suja, em frente ao seu estabelecimento, que nem a força do Sol consegue fazer evaporar porque até o astro-rei parece ter dificuldade em ali fazer vingar a sua luz. É com estas cores frias que Garrone constrói o cenário taciturno onde Marcello vive, mas o que realmente fascina o realizador é o rosto de Marcello, mostrado em incontáveis grandes planos até ao mais longo e final, de dois a três minutos, onde apenas vemos o rosto de Marcello e as suas subtis, mas profundas, mudanças de alma. Garrone fixa-se no Dogman e a estratégia funciona muito porque teve em Marcello Fonte um actor extraordinário, capaz de transmitir os sentimentos da personagem sem precisar de abrir a boca. Não foi à toa que Cannes o consagrou com o prémio de melhor actor.
“Dogman” podia ser mais uma história passada num cenário neo-realista italiano, com as habituais mensagens políticas – aliás, há quem veja política na relação Marcello-Simoncino, entre opressor e oprimido. Mas a verdade é que, no fundo, é o extraordinário relato da assunção de um homem enquanto tal.

Publicada a 06-01-2019 por Pedro Brás Marques