Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

Após ter no curriculum três filmes de excepção, dois deles realistas e carregados de sátira social ("Gomorra" - que explora os meandros da máfia italiana - e "Reality" - sobre a alienação provocada pela tv -, respectivamente de 2008 e 2012) e um outro (de 2015) nos antípodas destes (“Conto dos Contos” – cuja acção decorre no mundo de fantasia das histórias de encantar do “era uma vez”), eis que o italiano Matteo Garrone regressa com uma obra menor (apesar de toda a aclamação que existe em seu torno), “Godman”, que tenta misturar estes dois géneros cinematográficos (com personagens de desencantar num terrível e decadente subúrbio romano hiper-realista).

É incontestável a mestria de Garrone na construção da tensão (gradativa e detalhadamente) e na condução dos actores (de entre os quais se destaca o magnifico Marcello Fonte, cuja prestação lhe valeu o prémio de melhor actor em Cannes), tal como também é exímio na criação do ambiente urbano bruto, nu e cru (fazendo-se valer para o efeito de uma vistosa fotografia que usa e abusa de um “cinzentão quase apocalíptico”). No entanto, a narrativa visceral, e simultaneamente poética, desta espécie de western contemporâneo (que pode ser percepcionado como uma metáfora sobre o poder em Itália), acaba por revelar-se algo escassa/linear. Destituída de grandes desenvolvimentos dramáticos e/ou “imprevisibilidades”, centra-se quase exclusivamente na relação das suas duas (contrastantes) personagens centrais. Um passivo e inofensivo (mas não “inocente”, que tenta agradar tanto aos maus como aos vilões) tratador de cães versus o “feio, porco e mau” ex-pugilista psicótico e cocainómano (que passa a vida a abusar de si, tal como a aterrorizar a restante comunidade).

Moral da história? E há-se chegar o dia em que o raquítico "vira-latas" dará o latido de ipiranga contra o "pitbull" ...

Publicada a 28-12-2018 por José Miguel Costa