Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

O realizador Jafar Panahi encontra-se em prisão domiciliária, e proibido de filmar, desde 2010, acusado de propaganda contra o governo do Irão e a república islâmica. No entanto, tal não o tem impedido de contornar o Sistema, através de subterfúgios vários (sem consequências de maior para si, possivelmente, devido à sua notoriedade internacional), pelo que depois do excepcional "Táxi" (2015), ei-lo de regresso com "3 Rostos".
Se na obra precedente se passeou como condutor de um táxi pelas ruas de Teerão, encenando a sua própria persona, desta feita agarra-se ao volante de um jipe para nos levar numa viagem, através uma longa estrada sinuosa (que poderá ser encarada como uma metafóra), até ao interior profundo de uma zona rural na fronteira com a Turquia e o Azerbaijão (para, mais uma vez, nos expor, sem recurso a panfletarismos, perante as contradições/"violações" politicas e culturais de um país patriarcal profundamente conservador, ultra-religioso e autoritário).

"3 Rostos" é um mix de drama familiar (salpicado por inúmeros episódios humorísticos) e thriller, filmado em estilo "road movie" e com uma linguagem algo documental (em que realidade e ficção se esbatem), que explora a temática da opressão feminina (neste caso, a exercida sobre as mulheres pertencentes ao mundo artístico, apelidadas pejorativamente de saltimbancos).

A narrativa (humanista e - quase - sociológica), que coloca no ecrã três mulheres, representantes de três gerações diferentes de actrizes (personificando o passado, presente e futuro do "estado da arte"), inicia-se com uma respeitada estrela de cinema nacional a encetar uma viagem inesperada, para um local desconhecido (em conjunto com o amigo Jafari Panahi), após receber no seu telemóvel um video de uma jovem aspirante a actriz (cuja identidade desconhece) que parece enforcar-se ao vivo, alegadamente por a sua familia proibir a continuidade dos estudos que lhe permitiriam perseguir o sonho de enveredar por uma carreira artística.
E Nós aproveitamos a "boleia" destes dois para conhecer as tradições e os costumes ancestrais (e, infelizmente, também os retrógados preconceitos) dos aldeões dos vilarejos que vão trilhando no percurso em busca da enigmática autora do video.

Publicada a 20-05-2019 por José Miguel Costa