Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

A estreia de Carla Simón com o filme "Verão 1993" (cujo arco narrativo incide sobre uma pequena órfã catalã que perdeu os pais para o vírus HIV, motivo pelo qual passou a residir com os tios maternos numa pequena aldeia do interior) não passou despercebida, tendo, inclusive, vencido o prémio de melhor primeira obra no festival de Berlim (para além da escolha para representante de Espanha nos Óscares de Hollywood).
Trata-se de um (intimista/delicado) drama realista e naturalista (com uma linguagem algo documental, fruto do seu tom contemplativo) que, de um modo simples e sem recurso a sensacionalismos e/ou manipulações emocionais excessivas (apesar de abordar uma temática dura e complexa - o início da epidemia da sida e respectivos medos/estigmas que lhe eram associados na década de 90 do século XX), foca-se quase exclusivamente no processo de luto da criança (sem "beatificá-la").
A câmara encontra-se ao serviço deste (cativante) "pequeno furacão", nunca a largando (brindando-nos com frequentes grandes planos), e mesmo quando não estamos a visualizá-la directamente vemos o mundo que a rodeia através do ("seu") olhar de uma câmara subjectiva.

A serenidade que emana é, ainda, reforçada pela fotografia de excepção (com magníficos enquadramentos móveis e de captação das luzes) que (quase) nos faz sentir parte integrante do paraíso natural onde decorre o drama.

Publicada a 22-10-2018 por José Miguel Costa