Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Ser ou não ser...

“O mundo é um palco”, escreveu Shakespeare em “As you like it”. O bardo sabia disso como ninguém, dessa qualidade que faz parte do nosso conceito de humano, o de ser uma coisa e querer parecer outra, de pensar algo e dizer o seu contrário. Por hipocrisia, por medo, por vaidade, a mentira faz parte de nós.

Joe e Joan Castleman formam um casal já com certa idade. Um dia, enquanto saboreavam as doçuras da preguiça após acordarem, recebem um telefonema. Era a Academia Sueca a comunicar a Joe que ele vencera o Prémio Nobel da Literatura. Felizes perante os amigos, rapidamente descobrimos que a vida em comum é um caos, em que Joe tem uma tendência para o adultério e para menosprezar a mulher e o filho. As “provas” desta representação de felicidade conjugal acumulam-se durante a viagem a Estocolmo, para Joe receber o prémio, com os seus constantes flirts e com a sua egoística vaidade. Joan, por seu lado, parece aceitar a subalternidade perante o génio, atura-o, trata dele como se fosse mais uma mãe do que a companheira. Até ao dia em que não aguenta mais, em que a mentira se torna insuportável e, como os seus ombros não são os de Atlas, Joan consciencializa que já não aguenta o peso de estar a enganar o Mundo.
Ao longo da história, sucessivos flashbacks vão contando como tudo começou, em especial o porquê dessa quase submissão de Joan a Joe, que resultou simplesmente do facto de ela ser…mulher. E um jornalista americano, há muito desejoso de biografar o laureado, acaba por funcionar como o despertar dessa consciência e da necessidade de ela se assumir em toda a sua plenitude. Joe e Joan, como os próprios nomes deixam adivinhar, são praticamente as duas faces duma mesma moeda, um compromisso e uma cumplicidade de quem partilhou uma vida. A questão é que essa vida, não terá sido a vida “certa”…

“A Mulher” é um filme mediano, a escorregar para o telefilme, mas oferecendo uma interpretação superlativa, a de Glenn Close. Se Jonathan Pryce, enquanto Joe, vale aplausos, a actriz de “Ligações Perigosas” e de “Atracção Final” merece uma enorme “standing ovation”. Não há muitos actores capazes de transmitirem emoções sem sequer pronunciarem uma palavra, recorrendo apenas à expressividade do seu rosto. Close, aqui, fá-lo imaculadamente e por várias vezes. Não será o seu grande papel, título que estaria bem entregue a uma de duas suas composições: a da pérfida Marquesa de Meurteil no citado filme de Stephen Frears e a de Albert Nobbs, no filme homónimo. Se houver justiça na atribuição dos Óscares, Glenn Close leva a estatueta para casa. O filme é ela.

Publicada a 27-01-2019 por Pedro Brás Marques