Cinecartaz

Fernando Oliveira

Blackkklansman

“Blackkklansman” é um filme que questiona a actualidade americana, o racismo escondido pelo politicamente correcto, de uma forma extraordinariamente inteligente, deixando a história que conta entre o racismo de “E tudo o vento levou” e “O nascimento de uma nação” – a sua importância na história do Cinema, faz-nos esquecer isso mesmo: são filmes profundamente racistas – e, no fim, quando abandona os personagens e nos mostra o presente: a América de Trump, e os actos violentos dos movimentos da extrema-direita, e o discurso deste a desculpabilizar estas acções. A mostrar que o racismo está entranhado naquilo que são os EUA como nação.
E o que conta Spike Lee no meio? Uma estória delirante, mas verídica. Em 1979 Ron Stallworth, o primeiro detective negro em Colorado Springs, ao ler num jornal o número de telefone do Klux Klux Klan resolve telefonar e pedir para aderir. Quando é aceite, é ajudado por um colega, que faz de seu duplo nas actidades do grupo. A coisa corre tão bem que as circunstâncias levam a que ambos conheçam pessoalmente David Duke, o grão-mestre do KKK. E não é de somenos importância que Flip, o colega, seja judeu, a outra etnia odiada pelo Klan.
Spike Lee não se afasta da ideologia que o define, uma só nação mas sem perder as características que deveriam orgulhar a América negra, atira-se com ferocidade ao racismo branco – também na esquadra da policia, mas especialmente tornando anedótica a estupidez do comportamento dos membros da KKK – usando um humor bastante hábil (faz lembrar os filmes de Hawks, que gostava de usar o humor nas suas histórias mais “negras”) que não tem problemas em estender ao comportamento dos activistas negros, embora de forma muito mais terna, ver como olha para Patrice, a namorada radical no discurso, de Ron.
E é um filme magnifico na sua forma, um classicismo a cheirar a filme de género, os policiais da primeira metade da década de 70; e inteligente na sua denúncia, a forma como confronta a reunião do KKK, com os membros a ver o filme de Griffith como se fosse um documentário sobre a maldade animalesca dos Negros, e a história contada por um velho activista (interpretado por Harry Belafonte) sobre o linchamento de um negro acusado de violar uma mulher branca em 1916 (um ano depois da estreia do filme), e como as imagens desse acontecimento serviram para incrementar o racismo, e como o filme serviu para fazer renascer o KKK.
Um filme cheio de raiva, realizado por alguém que quando tem qualquer coisa a dizer, faz questão de o dizer da forma que melhor o sabe fazer: realizando filmes. Spike Lee terá, talvez, saudades do radicalismo revolucionário dos anos 70. Se calhar até da sua violência. Sem ser demagogo, ele é um dos mais activistas e político dos realizadores americanos: as suas acções são os seus filmes.
Um filme espantoso.
(em “oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt”)

Publicada a 07-10-2018 por Fernando Oliveira