Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Akkktual

Quase toda a obra de Spike Lee tem como pano de fundo o racismo na América, nas suas mais variadas matizes. Naturalmente que estar sempre a repetir a mesma temática acaba por ser fastidioso e foi precisamente o que lhe aconteceu em anos mais recentes: já não havia paciência para tanta “injecção”, para tanta “mensagem” por muito virtuosa que ela fosse. Felizmente, com “Blackkklansman” recuperou algum do crédito perdido, apesar de continuar a navegar nas mesmas águas de sempre…
A história, embora verídica, é bizarra e singular: nos anos 70, um polícia negro consegue infiltrar-se no Ku Klux Klan. E o mais curioso é que não há muito mais a explicar senão que, nos encontros pessoais, era substituído por um colega branco, mas em tudo o resto era sempre ele a dialogar com o KKK. E a iniciativa saldou-se pelo sucesso, terminando com o desmantelamento da célula local da organização e com a humilhação de David Duke e dos seus apaniguados. É claro que uma história que envolve racismo, ainda por cima ao nível extremista, quer do lado dos “white supremacists” quer dos defensores do “black power”, envolve uma complexidade que não ser resume numa linha. Mas apontando o paralelismo, Spike Lee consegue fazer passar muito bem a ideia de que os extremos tocam-se e o erro está em ambos as partes, muito embora do lado do KKK a violência e a exposição públicas sejam maiores.
É evidente que o recado é mais vasto do que o mero choque racial, com as ondas de choque a atingiram a situação política actual, em especial o híper-conservador Donald Trump, que ressuscitou a “America First”, frase repetida “ad nauseam”, então, pelos membros do KKK durante as suas sessões, minuciosamente retratadas no filme. E para que não restassem dúvidas de que “Blackkklansman” é um alerta para os dias de hoje, Spike Lee introduziu imagens reais dos recentes confrontos raciais nos EUA, mais particularmente em Charlottesville, onde se verificou o hediondo atropelamento de manifestantes por parte dum “supremacista branco”.
Mas o realizador está muito mais maduro e com isso veio alguma tolerância e uma menor necessidade de vestir a camisola de panfletário. Tudo isso, polvilhado com algum humor, faz de “Blackkklansman” um dos seus filmes mais equilibrados de sempre, uma posição que se espelha na personagem principal, o detective Ron Stallworth, interpretada pelo filho de Denzell Washington, John David Washington. Nota ainda para a presença forte, de Adam Driver, um actor claramente em crescendo.

Publicada a 04-10-2018 por Pedro Brás Marques