Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

"Blackkklnsman", o electrizante novo filme do Spike Lee (numa postura mais conciliadora do que é seu apanágio no que concerne às questões raciais), temperado com muito soul & disco, e oscilando brilhantemente entre os registos de drama e comédia, baseia-se na história verídica de Ron Stallworth (interpretado por um energético/viciante John David Washington - filho de Denzel Washington), o primeiro detective negro a ingressar num departamento da polícia do Colorado (EUA) no final da década de 1970 (época retratada numa espécie de delicioso "realismo de série B"), e que se destacou por conseguir infiltrar-se, através de contactos via telefone, no seio da secreta secção regional da ultra-racista organização de supremacia branca klu klux Klan (sendo, por motivos óbvios, representado nos encontros do grupo por um colega branco judeu - o sempre enigmático Adam Driver -, com o qual tinha de estar em perfeita sintonia). Como se tal não fosse per si suficientemente hilariante, em simultâneo, ainda namorisca com uma radical activista política de defesa dos direitos dos negros (que nem por sombras desconfiava relacionar-se com um "porco agente").

Para além da química/mística desta dupla de actores que o Spike Lee consegue "emanar-nos" com muita eficácia (e de um modo caricatural qb), realce-se que não me lembro de em qualquer outro produto da sétima ter visto os negros "captados" pela lente de um câmara de forma tão bela e glamourosa (classe pura!).

E claro que o Spike Lee se faz valer desta história-base como "muleta" para expor/desancar o actual "estado da nação" sob os desmandos do Trump, que mais não é que uma "cria" desta organização, que pela sua mão chegou ao topo da hierarquia do poder (onde há muito estava enquistada, de forma mais discreta). E possui a mestria para demonstrá-lo através de um improvável "mix de didactismo/propagandismo/divertimento/ironia" que nunca chegamos a achar exagerado (apesar de jamais acreditarmos na sua "seriedade" plena - e nem sequer era esse o seu objectivo, apostando mais em algo do género "a brincar a brincar ... se dizem as verdades").

Publicada a 13-09-2018 por José Miguel Costa