Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

Não é qualquer um (mas o israelita Samuel Maoz é um realizador de excepção) que possuindo apenas duas longas metragens no seu curriculum ("Libano", de 2009, e agora "Foxtrot") consegue a proeza de ambas serem obras primas incontestáveis.
Nesta coprodução (entre Israel, Suíça, Alemanha e França), em modo de drama familiar polvilhado por um ideossincrático "humor áspero" (e deliciosamente patético), volta a demonstrar uma visão crítica e irónica sobre a infinita guerra do seu país natal contra todos os vizinhos, nomeadamente os palestinianos (um eterno "loop" - e daí o titulo apelar à dança foxtrot, que consiste, tal como ele refere, "num passo para diante, um para a direita, outro para trás e, por fim, um outro para a esquerda, retornando à posição inicial"). Todavia, desta vez, não existem quaisquer cenas de batalhas, "apenas" nos expõe perante os traumas psicológicos provocados por um paranóico Estado securitario e belicista em sucessivas gerações de israelistas ("caricaturados" como zombies sem vontade própria à mercê de um "poder ridiculo"), tendo por base a história (dividida em três actos e relatada de forma não-linear) de uma família que foi notificada erroneamente da morte de um ente querido no cumprimento do dever.

A beleza e o cunho identitário desta obra advém não apenas da refinada narrativa (que apela a magnificas/divertidas metáforas e "planta" constantes "pormenores" poeticamente surrealistas, que irão culminar em "qualquer coisa mais" à posteriori, já que nada nos é oferecido de bandeja, havendo sempre algo por revelar/descobrir - como num sucessivo abrir de matrioskas), mas também da sua engenhosa linguagem visual (caracterizada por planos e movimentos de câmara "quase impossíveis" e uma fotografia arrebatadora). Em suma, um autêntico festim para a mente e visão.

Publicada a 21-06-2019 por José Miguel Costa