Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Batem leve, levemente...

“A Outra” é mais um desgraçado título português da longa lista de traduções disparatadas. O original é “Amoureux de ma femme”, o que tem um sentido completamente diferente e muito um significa do mais vasto no contexto do filme.
Daniel e Isabelle estão casados há muitos anos e vivem aparentemente felizes. Patrick é um amigo comum, que estava casado com a melhor amiga de Isabelle e de quem se encontra, agora, divorciado, o que o levou a afastar-se do casal. Um dia, Daniel e Patrick reencontram-se e o primeiro convida-o para jantar em casa até para conhecerem a nova companheira deste. No dia aprazado, Patrick aparece de mão dada com Emma, uma jovem e sensual morena que perturba profundamente Daniel, que não consegue deixar de fantasiar com ela e de questionar o sentido do seu casamento.
  
Estamos no domínio da comédia, não da burlesca como por vezes vemos chegar do hexágono, mas duma mais leve e assaz inteligente, jogando com uma carta segura: as incongruências duma crise de idade e a consequente problematização sobre o estado duma relação conjugal toldada por décadas de convívio. Realizado e interpretado por Daniel Auteuil “Amoureux…” só perde por não arriscar mais e terminar com ambições de querer dar uma irritante lição de moral. Tirando isso, é um filme que funciona na perfeição no seu propósito de entreter e de provocar algumas gargalhadas no espectador. O canastrão Gérard Depardieu está igual a si próprio, enorme não só na sua dimensão física como na sua desesperante cabotinice interpretativa, muito ao contrário de Sandrinne Kiberlain, um exemplo de distinção e elegância e de Adriana Ugarte, coquette e sensualíssima. Auteuil é aquilo que todos sabemos, um extraordinário actor, com uma enorme expressividade, inclusivamente física, mas sem cair em exageros pantomímicos. Já enquanto realizador, limita-se a cumprir com esta história de dimensão teatral, com quatro personagens no interior dum apartamento.

Publicada a 13-05-2019 por Pedro Brás Marques